10 de abr de 2010

Uma carta para meu pai

Oi, pai. Saudades...
Ontem foi noite de Lua Azul. Fiquei procurando algo no céu e não sei se encontrei. Acho que fiquei procurando seu rosto, sua careca, seu jeito de me chamar de Nenzico, de me pegar no colo e dar raspadinha de barba, brincando com seus dois nenê.
Quanta falta faz colocar minha mãozinha em sua mão enorme e caminhar com você no calçadão do Guaçu, na beira do rio, orgulhosa por mostrar às crianças a beleza da minha família sempre unida, andando na Praça do O, que eu e as meninas batizamos.
O quanto dói ouvir dizer que sou sua cópia fiel, se já nem lembro muito da sua voz, seu jeito de segurar o cigarro e demonstrar seu amor. Quanto dói não te ver nas fotos da minha adolescência, não dançar com você no baile de formatura, fechar os olhos e não ver tua cara gordinha, tua careca disfarçada de boné. Quanto dói saber que você nunca vai conhecer minha doce casa, montada graças ao meu trabalho, resultado de tudo que sou, resultado de tudo que és em mim.
Teu rosto sorridente ilumina minha sala, na foto sobre a escrivaninha, onde escrevo agora. Como seríamos se nos encontrássemos agora? Seríamos companheiros de copo e noitadas boêmias? Seríamos desvairados a discutir filósofos e autores amados? Leríamos Fernando Pessoa e Victor Hugo e depois entraríamos noites a dentro conversando sobre poesia e prosa? Seria eu sua "candinha portinari" com minhas bonequinhas cinturas de pilão?
Quanta saudade... Mas esqueço de falar de mim, das meninas, de sua amada Lú, dos seus netos. Minha família, sua família, seu pedaço vivo no mundo. Seu pedaço vivo em meu coração.
Não existem meios de fazer essa carta chegar a você, mas olhando a foto sobre a escrivaninha tenho a certeza que essas palavras já chegaram aí, onde quer que você esteja.
Plageando umas das frases que mais ouvi você dizer, haja o que houver, aconteça o que acontecer, te amarei sempre.

Texto escrito há mais de dez anos, para um concurso interno da Algar, que era realizado todos os anos. Com ele, ganhei uma televisão na época, mas ganhei mais... toquei o coração de várias pessoas. Este é o melhor presente para quem escreve.

2 comentários:

Anônimo disse...

Dri, fiquei emocionada com a sua carta. Quem já perdeu alguém que muito amou sabe o sentido do amor que fica. Dizem que essa é uma das definições da palavra Saudade.
Beijo,
Lu

Ariadne disse...

Oi Drica.
MAs que história de família, é uma histária de vida e de amor eterno. Mesmo que o pai não esteja aqui, em carne e osso, como eu sempre digo, ele faz parte de nós, do que somos, do que construímos, portanto, ele está aqui.
maravilhoso.
MIL BEIJOS