5 de set de 2010

Lixo para catar lixo

Resolvi aproveitar o lixo que os candidatos às eleições de outubro costumam jogar em minha caixa de correio e debaixo do meu portão, diariamente. Jornais, folhetos e impressos em geral são usados aqui em casa para catar caca de cachorro. Ou para forrar o chão onde eles fazem xixi. Já que não existe consideração com nossa casa, com nosso direito a não ter a caixa postal ou o portão da garagem entupido de papel, resolvi aproveitar esse lixo todo para uma finalidade importante, que é deixar minha casa livre das caquinhas das duas criaturas caninas que dividem a casa comigo.
Quisera eu poder fazer alguma coisa com a poluição sonora também. Carros de som no último volume invadem minha casa todos os dias. Eles passam repetidas vezes pelas ruas do meu bairro, enfatizando números e nomes, sem nenhuma proposta concreta dos candidatos. Se por um lado as músicas são chatas, são eficientes. Sei de cor o número de vários candidatos em quem não vou votar de jeito nenhum. Dia desses, na verdade, quase desisti de votar em um político que admiro, por causa do carro de som. Absolutamente nada a ver com ele, uma musiquinha brega, em tom de axé, para uma pessoa que considero um intelectual. Na tentativa de se aproximar dos eleitores, os profissionais de marketing e comunicação que o assessoram devem ter sugerido essa ferramenta popularesca e vazia de propostas.
Meu bairro é uma pequena cidade. Aqui acontece de tudo. Dia desses eu estava caminhando e vi uma carroça equipada com caixas de som e fazendo propaganda de político. Uma carroça, puxada por um cavalo, que provavelmente estava sofrendo com aquele barulho todo. Mas o mais inusitado aconteceu sábado, na feira. Enquanto eu escolhia frutas, um político cuja candidatura está impugnada pela justiça, fazia campanha junto aos feirantes e aos consumidores. O carro de som não podia entrar na feira. Sem problema. Dois rapazes, carregando uma caixa de som nas costas, dentro de uma mochila, seguiam o candidato e providenciavam a trilha sonora para que ele pudesse continuar cumprimentando pessoas e fazendo campanha. Um de seus assessores, quando perguntei para que aquele barulho todo, se ele estava impugnado, simplesmente me respodeu: quem tem dinheiro não tem a candidatura impugnada. E la foi ele, de banca em banca, incomodando todo mundo.
Além de não respeitar a privacidade das pessoas, essa campanha vai também deixar muita gente doente. Imagine os dois jovens com as caixas de som nas costas. Que sejam cinco horas por dia andando atrás do candidato ouvindo a mesma musiquinha chata, em alto volume. Ao fim do dia, quando eles vão dormir, a música não deve sair da cabeça deles... Penso também nos pobres coitados que ficam agitando bandeiras pelas esquinas. Será que recebem protetor solar? Será que usam bonés? Será que recebem água? O clima em Uberlândia está deixando a gente doente dentro de casa, imagina nos semáforos? Se bem que, nas últimas semanas, os "porta-bandeiras" foram substituídos por placas com fotos, nomes e números de candidatos, que invadiram praças, canteiros de avenidas, terrenos.
A justiça eleitoral criou várias regras para tornar a campanha mais limpa, mas de nada adianta. A cidade está suja. Poluição visual, com as placas espalhadas pelos quatro cantos e muito papel pelas ruas. Poluição sonora, com os carros de som berrando números. Falta de respeito ao trabalhador, com pessoas submetidas ao sol quente tremulando bandeiras vazias. A imprensa local deu espaço para os candidatos ao governo estadual. A imprensa nacional dá espaço para os candidatos à presidência. Por que não convidar os candidatos a deputado em nossa região para participar de entrevistas? Promover debates para que possamos conhecer as idéias? Talvez os comícios fossem menos barulhentos que os carros de som. Os outdoors eram pagos e geravam renda e trabalho. Os cartazetes de hoje devem ser colocados de graça e se a justiça mandar, são retirados rapidamente.
Para fechar, também me entristece e choca a influência que as pesquisas têm sobre o brasileiro. A eleição ainda nem aconteceu e já existe uma candidata praticamente eleita. Para que eleição então? Para que lutamos tanto para escolher nossos candidatos democraticamente? Para que tanto papel jogado fora, tanto barulho pelas ruas? Tem quem acredite que perde o voto se escolher um candidato que não é lider nas pesquisas. Na verdade, perdemos o voto quando exercitamos nosso direito sem cidadania. Perdemos o voto quando escolhemos políticos corruptos. Perdemos o voto quando somos "Maria vai com as outras".
Estamos vivendo um momento bonito de nossa história. A festa da democracia. Um tanto quanto desrespeitosa com o cidadão, mas ainda assim, é preciso participar, ler, buscar informações e, principalmente, manifestar-se contra o que está errado. Mesmo que seja apenas em seu ponto de vista...

1 de set de 2010

Superação

"O mundo dá tantas voltas
E nessas voltas eu vou
Cantando a canção tão feliz, que diz
Hy Lili Hi Lili Hello!"

Essa canção é de um filme antigo, que passava na sessão da tarde, sobre a história de Lili. Não me lembro bem dos detalhes, mas era algo ligado a uma moça simples, que passava por grandes dificuldades até chegar a um final feliz, como sempre acontece nos filmes de mocinha.
Mas me lembrei desse trecho porque acredito realmente que o mundo dá muitas voltas e a cada uma delas temos o poder de nos reinventar. De repensar nossas atitudes, nossas escolhas, nossos amores e nossos rancores. As voltas que a vida dá são oportunidades de mudança ou de reiterar o que há de melhor em cada um de nós.
Há alguns anos comecei um processo de mudança pessoal e profissional, um pouco forçada, um pouco por decisão própria. Durante algum tempo, sofri muito por minhas escolhas e pensei que o cenário não iria melhorar. Temos a tendência de pensar isso quando estamos no olho do furacão: "Nossa, isso só acontece comigo!"; "Por que eu?", "Será que essa tristeza não vai passar?" ou "Queria tanto sair desse buraco"... Esses pensamentos invadiram minha vida na época. Sou humana, de carne e osso. Por mais positiva que possa parecer, também desanimo e sofro por me sentir incapaz de fazer algo que sei que posso fazer.
Na época, parecia que as coisas não iam melhorar nunca, que os problemas iriam crescer, as portas iriam se fechar. Mas me recusei a pensar assim e procurei ajuda. Na terapia, na religião, nos amigos. Busquei novos projetos, voltei a estudar, passei a dar aulas, me propus uma reinvenção, novos papéis, novos desafios, deixar para trás muita coisa na qual eu me apegava para ser eu.
Hoje, quando olho no espelho, vejo uma pessoa feliz. Que canta na rua e sorri para a Lua Cheia. Uma pessoa realizada, embora ainda falte tanta coisa que posso viver e conquistar. Ser feliz é uma dádiva do hoje. Sei que tenho caminhos a percorrer, alguns retos, outros sinuosos, mas sei também que estou preparada e que saberei usar o calçado mais adequado.
No meio de todas as mudanças pelas quais passei, fiquei doente, tive que me cuidar para evitar uma cirurgia, dedicar tempo a mim para ficar bem. Também tive que aprender a conviver com um novo status, com falta de dinheiro e de apoio para seguir minha carreira. Tive que lidar com um assalto infeliz, onde o prejuizo material aliou-se a um medo grande, que quase se tornou patológico. Tive que lidar com o fato de não me reconhecer no espelho, mas vislumbrar o surgimento de alguém diferente.
A vida dá muitas voltas... e nessas voltas a gente muda, se torna alguém diferente do que foi. Nessas voltas eu vou. Vou ser feliz. Vou me estruturar profissionalmente. Vou ter saúde. Vou me dedicar mais a Deus. Vou me relacionar de maneira mais próxima com minha família. Vou brincar com meus cachorros. Vou ser mais expontânea. Vou amar mais. Vou me aventurar se der vontade, afinal não sou de ferro.
E vou cantando a canção (nem tão feliz), que diz: tudo passa, tudo passará... Lembrei de Renato Russo agora, que compos essa canção - Vento no Litoral - quando um de seus amores partiu. Ele sobreviveu a essa dor, mas sucumbiu à doença... Perdas irrecuperáveis...

Iniciativa simples, mas bem legal

Hoje fui ao supermercado Carrefour, de Uberlândia, e tive uma grata surpresa. Ao ver que eu embalava minhas compras em sacolas retornáveis, a moça do caixa me disse que eu poderia passar na área de atendimento ao cliente e preencher um cupom que daria direito ao sorteio de um jantar. De brincadeira, perguntei se era retroativo, uma vez que todos os fins de semana sigo o mesmo ritual de levar minhas compras para casa nas minhas ecobags.
Foi a primeira vez, em mais de três anos que evito sacolas plásticas, que vi esse tipo de iniciativa no Carrefour. Como sou jornalista e curiosa, quis saber mais a respeito. A moça me explicou que a iniciativa aconteceu porque o supermercado está se preparando para o momento em que as sacolas serão proibidas. Ela disse que eles estavam oferecendo caixas de papel para quem não tinha sacolas retornáveis. Falou também que no Atacadão, que pertence ao Carrefour, sacolas plásticas não são mais usadas.
Ao chegar na área de atendimento ao cliente, a moça pediu para eu preencher o cupom, um pedacinho de papel xerocado, bem diferente das mega campanhas e sorteios que o supermercado faz quanto a intenção é mercadológica (já teve até raspadinha com prêmio instantâneo). Percebi que essa deve ter sido uma ação da loja, embora saiba que a rede tem se preocupado em tornar suas lojas mais ecológicas, em todo o país. Fui informada então de que a ação seria feita apenas nesse fim de semana, talvez como uma forma de testar a aceitação do consumidor. Quando eu estava preenchendo o cupom, vi que o estímulo funcionou em parte. Vi pessoas saindo com seus produtos em caixas e pessoas saindo com sacolas.
Outra coisa que achei interessante foi que tivemos que informar o nome da atendente que nos incentivou a evitar sacolas plásticas. Talvez o Carrefour queira medir uma ação de treinamento ou quem sabe recompensar aquelas que conseguiram convencer mais clientes. Tomara que seja isso.
Sou uma pessoa otimista e acredito que pessoas e empresas podem mudar seu comportamento. Quando comecei a ir ao Carrefour com minhas sacolas retornáveis, me olhavam com desconfiança. Um dia fui obrigada a colocá-las em um saco plástico lacrado para poder entrar no supermercado.Fiquei indignada, reclamei, mas me obrigaram do mesmo jeito. Até hoje tenho medo do moço me obrigar a fazer isso de novo, entro com minhas sacolas disfarçadas de bolsa. Tem cabimento?
Mas penso que o Carrefour de Uberlândia pode querer iniciar uma mudança. Para eles, os consumidores não têm nomes ou rostos, são apenas tickets no caixa, mas essa pequena ação de comunicação e incentivo, mesmo que tenha sido tão simples, contribui para mudar ligeiramente minha impressão sobre a frieza da loja e de seus gestores.
Apenas para constar, embora tenha muitas críticas, o Carrefour fica perto de casa e encontro tudo que preciso lá. Por isso continuo meu ritual semanal neste estabelecimento. Torço para que um dia eles invistam em relacionamento com seus clientes frequentes, coisa tão fácil de fazer em tempos de tecnologia.

Campanha eleitoral

Semana passada escrevi a respeito de pequenos deslizes que empresas cometem e que fazem com que seus clientes peguem a maior birra. Em algumas vezes, são situações que poderiam ser resolvidas a partir de uma boa conversa, de uma justificativa ou de algum tipo de compensação pelo transforno sofrido. Foi uma das muitas reflexões que tenho feito sobre imagem organizacional, conquista e fidelização de clientes.
Minha birra dessa semana vai para a campanha eleitoral, que usa e abusa de recursos que talvez funcionem, mas são detestáveis para uma parte da população. Falo, em primeiro lugar, do famigerado carro de som, que invade os bairros da cidade e desde às 8h da manhã de um sábado começa a repetir seu jingle que mais parece um pesadelo para quem ainda precisa dormir um pouco. A única coisa que lembro deles são números desconexos. Tenho tanta raiva que nem presto atenção no nome ou na mensagem. Isso sem falar nas vezes em que estamos no nosso próprio veículo atrás deles. Andam devagar, atravancam o trânsito e mantém o volume super alto, sufocando o pobre motorista que calhou de se aproximar.
Outro dos meus espantos fica por conta das pessoas que chacoalham bandeiras nos cruzamentos da cidade, sob a luz do sol do meio dia. Nos cruzamentos das principais avenidas da cidade, cabos eleitorais de diferentes candidatos enfrentavam bravamente o sol do meio dia, sem qualquer tipo de proteção contra os raios solares, que embora mais fracos no inverno, devem ser tão nocivos quanto no verão. Ao passar por essas pessoas, não presto atenção aos números dos candidatos, mas ao quanto elas estão se expondo de maneira desnecessária. Não dá para saber se elas recebem protetor solar dos candidatos ou mesmo se recebem alguma orientação sobre a exposição ao sol, mas o fato é que elas estão lá, tremulando bandeiras nos cruzamentos da cidade. Um bonezinho já ajudava...mas acho que a justiça também proibiu...
Nesta manhã, quando passava pelo cruzamento da avenida Rondon Pacheco e João Naves de Ávila, um vendedor ambulante me pegou de prosa e disse que os cabos eleitorais atrapalham o movimento das vendas. Isso porque as pessoas, quando vêem as bandeiras já sabem que receberão santinhos ou gente pedindo para colar adesivos nos carros. Isso faz com que elas fechem o vidro e não abram para os ambulantes. "Eles acabam com a gente, minha filha", foi o que o ambulante me disse.
Os santinhos são outra coisa que acho complicada nas eleições. Por um lado, eles são uma boa maneira de conhecermos os candidatos. Alguns trazem o currículo e as realizações deles, o que nos ajuda a ter maiores informações. Por outro lado, aqueles que contém apenas nome e número não nos dizem nada. Pedaços de papel que rapidamente vão parar na pilha de reciclagem. Aliás, o volume dela vai aumentar nesse período eleitoral. Mas me comprometi a ler os folhetos que trazem o perfil dos candidatos, nem que seja apenas para conhecer e reforçar minhas escolhas. Isso sem contar que eles acabam sendo jogados nas ruas da cidade, deixando-a suja e mal cuidada.
Acredito que o grande desafio é pensar diferente sobre campanhas eleitorais. Os profissionais que assessoram as campanhas fizeram apenas substituições práticas. A justiça proibiu out door? Usemos pessoas tremulando bandeiras sob o sol fervente do cerrado. Ou então, carros totalmente adesivados que ficam estacionados em pontos chave da cidade o dia inteiro. A justiça proibiu comícios com shows? Comício sem show não dá ibope. A justiça delimita tempo no rádio e na TV? Dá-lhe carros de som com jingles que repetem várias vezes o número dos candidatos.
Até onde sei, a justiça não proibiu debates. Na TV, na web, no rádio. Semana passada, o primeiro debate dos candidatos à presidência realizado via web teve mais de 1,7 milhão de acessos. Foi comentado ao vivo por brasileiros de todos os cantos, por meio do twitter. Na TV, o primeiro foi considerado morno, mas os candidatos tiveram vez e voz.
Penso que, em uma sociedade que anda preocupada com meio ambiente, os debates, o horário eleitoral gratuito, a cobertura da mídia sejam meios muito mais eficazes de conquistar o eleitor do que carro de som, santinhos e pessoas tremulando bandeiras nas quais provavelmente nem acreditam. Ao mesmo tempo, essa campanha, pelo menos em Uberlândia, desrespeita o trabalhador que quer dormir um pouco mais no fim de semana. Desrespeita as ruas da cidade e as casas das pessoas, com pilhas de papel que invadem os espaços. Desrespeita os cabos eleitorais, que são contratados para ficarem sob o sol com bandeiras e sem proteção. Talvez isso desse uma boa pauta, entrevistar os cabos eleitorais para ver se estão se protegendo dos raios solares e dermatologistas que falem dessa exposição.
Penso que talvez estejamos vivendo uma crise de criatividade em relação à campanha política, em parte motivada pelas muitas restrições impostas pela justiça eleitoral. Também não tenho uma resposta, mas penso que talvez fosse possível seguir outro caminho, que despertasse o interesse dos eleitores para conhecer a proposta dos candidatos e fazer uma escolha consciente.
Do jeito que está, essa campanha tem me provocado é repulsa, sem exceções. Dignidade e cidadania também merecem espaço na comunicação.