30 de mai de 2010

Dona Anita

Há muitos anos, ela bateu na minha porta pela primeira vez, pedindo algum dinheiro ou algo para comer. Dei alguma coisa, fechei a porta. Pronto, consciência tranquila. Dias depois, ela voltou. Dessa vez, além de comida e dinheiro, ela queria um dedo de prosa. Eu, impaciente, fiquei ali, porta entreaberta, sem querer estender muito a conversa com aquela senhora suja, mal vestida e cheirando mal. Mas ela me contava das doenças, dos filhos, da vida dura. Ao seu lado, sempre, um cachorro. Também sujo, também cheirando mal, mas sobretudo fiel.
Seu nome era Dona Anita. Depois daqueles primeiros dias, semanalmente ela batia à minha porta. Comida, dinheiro e um dedo de prosa. Ela perguntava de tudo. Se eu era casada, se tinha filhos, onde trabalhava, se gostava de manga. Ela contava de sua arte de fazer sabão, dos braços envelhecidos que ainda catavam lixo nas ruas para vender, dos filhos doentes e violentos, do casebre onde morava. O cachorro sentava-se na porta de casa e ficava ali, apenas observando.
A partir de determinado momento, resolvi "adotar" Dona Anita, dentro do meu medo. Passei a fazer uma compra mensal para ela. Além dos itens básicos, itens de higiene para ela cuidar da pele doente, muito leite para ela fortalecer os ossinhos frágeis, verduras, frutas, carne. Eu saía do supermercado diretamente para a casa dela, onde entrava com medo dos filhos, sempre de cara feia, sujos, bêbados, desconfiados. Com o tempo, acostumei-me com eles e eles comigo. Sabiam que eu era a moça que levava a compra para Dona Anita.
Para retribuir, ela continuava me visitando. Às vezes me trazia ovos, que as galinhas que teimava em criar no quintal imundo botavam aos montes. Trazia também sabão, que seus braços de mulher velha e forte ainda conseguiam fazer. Trazia mangas e bananas que nasciam em seu quintal. Em sua simplicidade, ela me dava o pouco que tinha, em troca do pouco que eu dava.
Dona Anita era bem velha, sofrida, vítima do abandono e dos maus tratos dos filhos que, além de todos os males, abusavam sexualmente dela. Quase no final de sua vida, ela ficou muito doente. Consegui que um asilo a aceitasse. Fizeram exames médicos e constataram os casos de violência, de degradação e dor. Ela foi internada, fraquinha, fraquinha... Pouco depois morreu. Perto do Natal. Eu estava fora da cidade, mas fui avisada. Nada a fazer.
Tempos depois reparei que o cachorro continuava na porta do casebre onde ela vivia. Os vizinhos davam comida. Os filhos venderam o terreno imundo, mudaram-se para outro canto. Mas o cachorro continuou ali, por muitos e muitos anos. Sempre que o via, lembrava de Dona Anita, uma velhinha abandonada.
Hoje passei por lá e não vi mais o cachorro. O terreno ganhou um muro fechado, não se vê mais nada. Penso que ele deve ter ido encontrar com Dona Anita, onde os dois perambulam juntos pelas ruas do céu. Onde quer que esteja, saiba que fiz o melhor que pude, em meu egoísmo, em minha falta de paciência. Bem que podia existir uma lei de adoção legal de pessoas idosas, para que pudéssemos cuidar delas com o respeito que merecem.
Para fechar, um belo texto sobre a velhice. Clique aqui.

26 de mai de 2010

Deixe secar a raiva

Esse espaço é para minhas reflexões pessoais, impressões sobre a cidade, assuntos mais genéricos...
Mas há momentos em que nos deparamos com textos tão interessantes que vale a pena replicá-los, desde que respeitando-se a fonte. Esse é da coluna da Anita Godoy no Jornal Correio, publicado na edição de 26 de maio.
Na escola da vida e dos relacionamentos, aos poucos vou aprendendo a pensar antes de agir. Sempre fui de explodir no momento em que as coisas aconteciam, em que as pessoas me magoavam ou em que algo saía diferente do que eu tinha planejado. Ainda faço isso, mas sempre negocio comigo mesma, com meu pavio curto, com minha ansiedade de dizer tudo o que fica às vezes entalado na garganta.
Tem momentos em que aquela pessoa tão próxima pisa na bola e a gente quer descascar o abacaxi. Outros, em que a gente está cansado e chateado e acaba descarregando no outro a nossa raiva. Outros ainda em que uma gota d´água vira um tsunami.
Por isso, da próxima vez em que eu pensar em explodir e falar coisas movida pela raiva, acho que vou me lembrar dessa pequena história e deixar a raiva secar...

"Certa vez uma menina ganhou um brinquedo no dia do seu aniversário.
Na manhã seguinte, uma amiguinha foi até sua casa lhe fazer companhia e brincar com ela. Mas a menina não podia ficar com a amiga, pois tinha que sair com a mãe. A amiga então pediu que a menina a deixasse ficar brincando com seu brinquedo novo. Ela não gostou muito da ideia, mas, por insistência da mãe, acabou concordando.
Quando retornou para casa, a amiguinha não estava mais lá: tinha deixado o brinquedo fora da caixa, todo espalhado e quebrado. Ela ficou muito brava e queria porque queria ir até a casa da amiga para brigar com ela.
Mas a mãe ponderou:
- Você se lembra daquela vez que um carro jogou lama no seu sapato?
Ao chegar em casa você queria limpar imediatamente aquela sujeira, mas sua avó não deixou. Ela falou que você devia primeiro deixar o barro secar. Depois, ficaria mais fácil limpar. Com a raiva é a mesma coisa. Deixe a raiva secar primeiro, depois fica bem mais fácil resolver tudo.
Mais tarde, a campainha tocou: era a amiga trazendo um brinquedo novo.
Disse que não tinha sido culpa dela, e sim de um menino invejoso que, por maldade, havia quebrado o brinquedo quando ela brincava com ele no jardim.
E a menina respondeu:
- Não faz mal, minha raiva já secou!
Discussões no dia a dia, nos relacionamentos e no trabalho podem levar as pessoas a ter sentimentos de raiva. Segure seus ímpetos, deixe o barro secar para depois limpá-lo. Assim você não corre o risco de cometer injustiças."

23 de mai de 2010

Atraídos pela qualidade de vida

Essa matéria foi publicada no jornal Correio de Uberlândia neste domingo, 23 de maio, e fui uma das personagens, graças ao meu amor pela cidade onde vivo. Por isso resolvi compartilhar. O autor da reportagem é Marcelo Calfat, um jovem e competente jornalista da cidade.



Caminhar entre o verde do Parque do Sabiá, passear com o cachorro, apreciar os dias de céu azul, conviver com uma poluição quase imperceptível e chegar com rapidez a qualquer ponto da cidade. Situações que passam despercebidas pelos uberlandenses fazem diferença para quem vivia em grandes centros urbanos. Por outro lado, pessoas que vêm de pequenas cidades se encantam com as opções de comércio, de lazer, de escolas e com o espírito progressista.
Os uberlandinos — termo criado pelo jornalista Luiz Fernando Quirino para denominar as pessoas nascidas em outras localidades e que escolhem Uberlândia para viver — aprovam a qualidade de vida que a cidade oferece.
“O tom de azul do céu, visto daqui, é impressionante, belíssimo. Já visitei 19 países e nunca vi nada igual”, disse o acupunturista e massoterapeuta Marco Antônio Gonçalves da Cruz, que há cinco meses deixou São Paulo para morar em Uberlândia. Para ele, a facilidade no trânsito e o contato com a natureza fazem com que a vida seja ainda melhor.
“Você se desloca 10 minutos e se depara com lugares muito tranquilos e vivencia a natureza de uma forma muito especial. Com a vida daqui ganhei mais tempo para mim. Hoje faço ginástica, caminhada, ando de bicicleta. Coisas que eu não fazia em São Paulo.”
A empresária Maria Cristina Mesquita Ribeiro Brunckhorst também trocou a capital paulista por Uberlândia. "Por ser uma cidade menor, tudo fica mais fácil. Por isso, temos como aproveitar melhor nosso tempo. Gosto de morar aqui principalmente pela qualidade de vida dos meus filhos", disse. Para ela, apesar do desenvolvimento, com universidades, empresas de grande porte e variedade no comércio, o espírito de cidade pequena contagia. Segundo ela, um conjunto de fatores torna a cidade única: “Segurança, qualidade e custo de vida, praticidade e as oportunidades que ela nos propicia”.

Migrantes demonstram admiração

Pessoas que saíram de cidades menores do que Uberlândia também se apaixonaram pela vida na “terra fértil”. A jornalista Adriana de Faria e Sousa, natural de Franca (SP), é um exemplo. “Vim para cá há 16 anos e sei até o hino [do Município] de cor. Amo caminhar pela cidade acompanhada da Bella, minha cachorra. Gosto de ir às praças, ao Parque Linear [do rio Uberabinha], que acho maravilhoso, andar no campus Santa Mônica. Uberlândia é a minha casa. Mais até que Franca. Quando alguém me pergunta de onde eu sou, fico sempre confusa na hora de responder. Nasci em Franca, mas sou de Uberlândia.”
A comerciante Vandeci Pita Vieira nasceu no arraial de Tuiutinga, no município de Guiricema, na Zona da Mata de Minas, e morava em Guidoval, na mesma região, antes de se mudar para Uberlândia, há oito anos. Ela diz ter se encantado com a cidade. “Eu amo morar aqui. É uma cidade muito bonita, arborizada, com muitas áreas de lazer, escolas e faculdades. É um lugar que tem tudo. É muito animado e bem organizado.”

Lugares apreciados

Parque do Sabiá
Praia Clube
Campus Santa Mônica
Parque linear do rio Uberabinha
Bairro Fundinho
Barzinhos
Center Shopping
Barraquinhas de igrejas

Diferenciais

Céu azul
Tranquilidade
Arborização
Contato com a natureza

Feira de antiguidades na Casa da Cultura


Neste sábado, fui conferir a Feira de Antiguidade na Casa da Cultura, em pleno centro da cidade. Guardadas as devidas proporções, senti-me no Masp, nas manhãs de domingo, onde acontece uma feira de antiguidades muito interessante. O Masp, para quem não sabe, é o Museu de Arte de São Paulo, construído por Assis Chateaubriand na Avenida Paulista. Embaixo do prédio, tem um vão gigantesco, onde todos os domingos tem uma feirinha de antiguidades, que atrai pessoas de todos os tipos.
A feira de Uberlândia foi uma primeira iniciativa, coberta de charme. Logo na entrada, para garantir que apenas boas energias entrariam no local, os "Guardiões" do artista plástico Assis Guimarães. Peças feitas em ferro, em tamanho natural, que em suas formas abstratas transmitiam gestos de proteção poderosos. É incrível como o metal "fala" pelas mãos do artista. Foram mais de seis anos de trabalho, que os visitantes da feira puderam levar para casa em estatuetas de tamanho reduzido, produzidas pelo artista para quem quisesse e precisasse de proteção.
Assis me deu uma breve lição de arte, ao dizer que o valor de cada peça era inferior ao de uma TV de LCD, mas que muitas pessoas ainda preferem levar para casa a TV, ao invés da proteção artística de um de seus guardiões. Talento tem preço?
Outro trabalho interessante, além das peças dos antiquários, eram  as esculturas de Jocimar Tavares, um veterinário que virou artista. Suas árvores, mandalas e imagens abstratas, todas produzidas em aço, mais uma vez transformaram o metal em momentos de sensibilidade. Reproduções de Davi, de Michelangelo, e do Pensador, de Rodin, em placas de aço, registram a arte em estado puro. Gostoso de ver.
Na feira, vi gente comprando arte em Uberlândia. Pagando o valor merecido. Vi pessoas apreciando peças antigas, vi obras de arte, vi artesanato, vi gente vendendo bijouterias e cachecóis. Mas vi também uma cidade que se propõe a divulgar seus talentos, a criar um mercado de arte, a quebrar o paradigma de que em Uberlândia não se consome arte. E o artista, vive de que?
Na próxima oportunidade, participe e valorize o que é da cidade.

16 de mai de 2010

Aqui e acolá

Podem me chamar de provinciana, interiorana e muitos outros adjetivos que indicam quem tem mentalidade de cidade pequena. Eu admito. Sou culpada por gostar de viver no interior e querer evitar, a todo custo, a vida nas grandes cidades (embora em alguns momentos de minha vida tenha tentado este movimento. Mudar de idéia faz bem!).
Nesta semana estive em São Paulo, para um encontro de trabalho. Para chegar em qualquer lugar, dentro da cidade, muitas vezes gasto o tempo que gastaria para ir de Uberlândia a Araguari. O trânsito não anda, as pessoas buzinam nervosas, o relógio corre acusando os compromissos atrasados. Vidros do táxi fechados. Medo, ansiedade, pressa.
A cidade de São Paulo tem muitas coisas legais, a começar pela vida acadêmica, que é extremamente rica. Além da USP, várias universidades excelentes onde se produz conhecimento, posteriormente compartilhado com pesquisadores do país e do mundo. São Paulo tem o MASP, obra de Assis Chateuabriand, cujo acervo foi construído à custa de uma dose de chantagem e outra de negociatas envolvendo a imagem de pessoas públicas e endinheiradas da Sâo Paulo do século passado. História contada no livro de Fernando Morais, "Chateau, O Rei do Brasil".
São Paulo tem o Largo do São Francisco, onde alunos retrógrados reclamam do investimento privado que permite ampliar a estrutura da faculdade. Tem teatro, tem shows, tem metrô, tem música de graça nas manhãs de domingo, tem Ibirapuera. Tem amigos queridos, tem momentos gostosos, tem progresso e desenvolvimento. Tem de tudo e tem nada, pois falta tempo para as pessoas aproveitarem. Trabalho, casa, trabalho...
É bom ir a São Paulo às vezes para apreciarmos as coisas boas que Uberlândia tem. Tem UFU, que apesar de seus muros altos e fechados, é um centro de produção de conhecimento. Tem teatro nas praças, tem músicos de qualidade, tem Luiz Salgado (que mora em Araguari e é de Patos de Minas, mas Uberlândia tomou conta!) com a saga do violeiro que prometeu a alma ao diabo em troca de melhorar no ofício (veja aqui clipe com declamação de Disputa de São Gonçalo e o Capeta). Tem Fundinho, bairro tão charmoso. Bem ou mal, tem um shopping com muitas salas de cinema e em breve terá outro. Tem galerias de arte, exposições, shows, peças teatrais, tem London, tem Parque do Sabiá, tem Praia. Tem gente bacana.
Quando adolescente, eu costumava pensar que minha cidade era um saco e que nas outras residiam todos os prazeres e maravilhas que ali eu não encontrava. Hoje vejo que em Uberlândia encontro tudo o que preciso para ser feliz (só falta encontrar um namorado, mas nenhum lugar é perfeito, perfeito, perfeito...).
Amigos, lugares, memórias, encontros e desencontros.
Lugar perfeito para se viver? Talvez sim, talvez não. A felicidade tem que estar onde a gente a coloca. Muitos a colocam nas prateleiras mais altas, onde não serão capazes de alcançar.
E viva Uberlândia. Sempre.

2 de mai de 2010

Felicidade

Há muitos anos, um professor da USP, chamado Clovis Barros, indicou aos seus alunos um livro chamado "A Felicidade, Desesperadamente". Na ocasião ele avisou que não se tratava de um livro de auto ajuda, mas de uma obra libertadora, de filosofia pura, de conteúdo para levar à reflexão e alterar significativamente a vida de uma pessoa.
Comprei o livro na mesma tarde, na Livraria Cultura da Paulista. O autor, André Comte-Sponsville, um filósofo contemporâneo, que escreve sobre o homem de hoje relacionando nossas experiências aos autores clássicos que versaram sobre felicidade, razão de viver, importância da existência.
No pequeno livro, o autor desafia seus leitores a vivenciarem a felicidade no momento presente, sem esperar que algo aconteça e promova a felicidade como num passe de mágica. Ele diz que normalmente fazemos planos de sermos felizes depois de determinadas conquistas - quando comprar a casa, quando conseguir aquele emprego, quando me casar, quando criar os filhos, quando me apostentar. A felicidade vai sendo postergada dia a dia. Vamos empurrando com a barriga. E pedindo à felicidade que espere, espere, espere...
Quando li o pequeno tratado da felicidade na desesperança, aprendi a viver profundamente meus momentos de felicidade. Um deles aconteceu ontem à tarde, da maneira mais singela possível. Fui ao clube de manhã e, quando resolvi ir embora, vi que teria um show de chorinho a partir das 12h. Resolvi então almoçar, sentar à sombra de uma árvore a ouvir um pouco do show, enquanto terminava de ler um livro. A brisa da árvore me fez viajar para outro lugar. Fresco. Quando a música começou, foi emoção pura. O choro combinou-se ao violino, numa soma do erudito e do popular capaz de encantar qualquer passante.
Neste momento, senti uma felicidade tão grande, que meu coração parecia que ia parar de felicidade. Aí me lembrei de meu filósofo admirado. O momento era perfeito. O vento, o sol, a música, o prazer do momento. Ao fundo, a banda tocava Carinhoso, que reúne os versos mais bonitos já escritos em língua portuguesa.

"Meu coração
Não sei por que
Bate feliz
Quando te vê

E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim..."

Felicidade é ouvir Carinhoso, depois de ter ganho beijinhos de um bebê de olhos azuis, de um passarinho pousar ao meu lado e cantarolar, de terminar um livro maravilhoso e ouvir Carinhoso no bandolim. Precisa mais?

(No link, escolhi uma versão na voz de Elis, que torna a canção ainda mais linda...)

1 de mai de 2010

Um beijo, Adriana

Há muitos anos, quando a internet ainda engatinhava e nem se falava em redes virtuais, resolvi procurar um namorado via web. Cadastrei-me em um site de namoro movida pela boa experiência de uma amiga, que acabara de se casar.
Não encontrei o amor da minha vida, mas conheci Neo Classic. Na época, começamos a nos corresponder enigmaticamente, primeiro pelo site, depois por emails. Nunca nos conhecemos pessoalmente e provavelmente nunca iremos fazê-lo. Mas por alguns anos, trocamos emails um com o outro, que acabaram se tornando um conjunto de belas reflexões.
Procurando crônicas antigas, esbarrei num documento onde salvei as mensagens que eu enviava. Perdi as que ele me enviava, mas os recortes de meus pensamentos geraram reflexões sobre a vida, o trabalho, dores de amor, que resolvi publicar aqui, editando aquelas que mais me tocaram.
Um dia, gostaria de resgatar minhas velhas cartas, meus emails, minhas conversas jogadas fora. Talvez daí nascesse quem sabe um livro. Mas enquanto não consigo resgatá-los, segue um extrato de minhas mensagens para Neo Classic, que sempre terminavam com a frase "um beijo, Adriana".

Alma de ipê

Há momentos em nossa vida em que temos que destruir para construir, morrer para renascer. Sou como um ipê, que na maior parte do ano se confunde com todas as outras árvores do cerrado, com seu tronco irregular e folhas do mesmo verde. Quando chega o inverno, as folhas todas caem e os galhos secos e nus ficam com frio até que elas, as flores, chegam como poesia, colorindo a paisagem do cerrado de rosa, roxo, amarelo, branco.
Minha alma se parece com um ipê amarelo, a árvore mais linda que há. Eles florescem depois dos roxos e rosas. As ruas da cidade ficam alegres e tudo ganha vida nova. É lindo ter alma de ipê. No inverno eles reinam sobre as demais árvores, chamando atenção para sua beleza.

Tormenta

De repente algo externo vem e muda nossa agenda... Foi o que me aconteceu. Percebi o quanto é tênue a linha que separa um dia normal, uma viagem até então tranquila, de um acidente que poderia ter me levado para o lado de lá. Ainda estou confusa se estou aqui e se sou apenas um espirito errante que não conhece seu lugar.
Mas acho que espírito não usa a internet, nem fala no celular. Logo, se você me responder normalmente, é porque ainda sou de carne e osso e alguns arranhões... Eu, que já amo tanto a vida, amo ainda mais este
momento. O céu está mais azul, as flores mais coloridas e as pessoas mais especiais. Estou com medo demais de encarar o que aconteceu e escrever é uma das minhas formas de enfrentar meus medos.

Na estrada

A trilha sonora desta semana incluiu Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil e Ivan Lins. Bons companheiros de viagem. Tinha também um com clássicos do cinema. Ouvi 10 vezes "I will survive", com Dianna Ross. Estou com o coração partido e esta música levanta até defunto. Ainda não consigo dizer "You are no wellcome anymore" para o homem a quem entreguei meu coração, mas se as coisas continuarem como estão, terei que desenvolver esta coragem.
A beleza do fim de semana, é óbvio, esteve na estrada. A vegetação, o vermelho do por do sol, a luz da lua.

Borboletas são flores que voam

Turbilhões como este fazem parte de nossa vida. Já passei por isso algumas vezes e foi difícil encontrar meu ponto de equilíbrio novamente. Há momentos em nossa vida que nos sinalizam a necessidade de mudanças internas e externas. Momentos de virada podem ser cruciais para os caminhos que tomamos rumo à nossa felicidade. Algumas vezes somos atores destes momentos, em outras somos levados pela correnteza. Por isso, o importante é saber nadar, saber voar, saber sentar e esperar, ter resiliência para aceitar o que acontece e seguir em frente.
Plantei um girassol no meu jardim. Ficou lindo. È uma das minhas flores favoritas e me lembra as borboletas, que são flores que voam. O girassol é a flor mais alegre que existe.

Você sabe com quem está falando?


O antropólogo Roberto DaMatta, se não me engano no livro "Casa Grande e Senzala" ou em "Carnavais, malandros e heróis", destacava o velho hábito brasileiro das pessoas que se julgam melhores que as outras e vez ou outra sacam da língua afiada um "você sabe com quem está falando?". Segundo DaMatta, isso é um dos infelizes traços da cultura brasileira, usado por diferentes extratos sociais, de acordo com a ocasião e a necessidade de quem usa a expressão.
Hoje pela manhã, ao conversar com uma senhora a quem admiro muito, ela me contava um desses episódios, em que uma paciente teria "sacado" essa arma verbal contra uma profissional da área da saúde que havia se recusado a prestar um serviço por um valor abaixo do seu preço de custo. Nervosa e grosseira, a (in)paciente não apenas disse a frase "Você sabe com quem está falando", como também levou a profissional para uma audiência com seu parente poderoso, no caso, alguém do Ministério Público. Na audiência, a autoridade teria tentado forçar uma decisão favorável à sua parente, mas todos os argumentos da profissional demonstravam que ela estava com a razão. Terminada a contenta, ninguém mais tocou no assunto. Gastou-se dinheiro e tempo de um servidor público para resolver um problema privado. Tudo por causa de uma pessoa irracional, que ao não ser atendida em sua sovinice, resolve usar seu "poder" para ameaçar uma profissional que estava no seu direito de cobrar o valor justo pelo seu trabalho.
Quem me contou essa história é uma senhora, que viu sua família envolvida em uma briga sem pé nem cabeça, movida por uma pessoa arrogante e incapaz de resolver um conflito de maneira educada. Fico estarrecida com a quantidade de pessoas, aqui mesmo, em nossa cidade, que recorrem ao velho termo do tempo dos "coronéis", para tentar valer sua vontade, independente dos direitos e vontades dos outros. Nessa semana, no twitter, foi postado que uma pessoa dirigindo um carro da Setran estava falando ao celular. Nós mortais, seríamos multados. O motorista em questão, se parado, talvez repetiria: "Você sabe com quem está falando?". Há algum tempo, uma série de homens públicos teve suas multas "aliviadas" pela Secretaria de Trânsito e Transporte. O responsável foi afastado temporariamente do cargo, mas retornou e provavelmente, a quem o interpela, deve sacar também do termo.
Precisamos atuar de maneira mais cidadã. Registrar os abusos, não aceitar a arrogância, assumir nossos direitos. Ao ouvirmos um "você sabe com quem está falando?" temos que responder: "Sim, estou falando com uma pessoa de carne e osso, com sentimentos, história, família... uma pessoa igual a mim em direitos e deveres".

Comunicação Empresarial Estratégica: práticas em Minas Gerais

Este é o título do livro editado pela Aberje Editorial, que reúne práticas de comunicação organizacional de empresas mineiras. Trabalho desde 1994 neste setor e essa é uma das boas obras que li recentemente. O motivo de resolver destacá-la neste espaço, que trata de coisas da cidade, é que o primeiro capítulo foi escrito pela competente Ana Cristina Reis Faria Neves, que atua na área de comunicação corporativa da Algar já há muitos anos.
Ana Cristina (ou Kiki, como é chamada pelos amigos) abre a publicação com o capítulo "O dia a dia da Comunicação Empresarial", onde conta um pouco da evolução dos processos de comunicação das organizações com seus públicos e compartilha sua experiência com os leitores. O texto gostoso e direto faz com que seja possível entender, de maneira simples, a importância da comunicação para as organizações.
São dezessete capítulos, cada um escrito por um comunicador mineiro. Em cada experiência, podemos aprender um pouco mais e ver a qualidade da produção feita em nosso Estado. Temos a tendência de achar bom o que vem de fora, mas nesse caso, temos uma preciosidade em mãos, um livro que merece ser lido, adotado nos cursos de comunicação e indicado para profissionais que atuam nas áreas de Comunicação Organizacional, Relações Públicas, Jornalismo e Marketing.
 Em Uberlândia, temos profissionais extremamente competentes nessa área e muita história para contar. Ana Cristina é precursora ao fazê-lo formalmente em livro. Por isso, temos que valorizar, divulgar e multiplicar os conhecimentos e a experiência dessa profissional e de tantos outros, que contribuem para melhorar a imagem das nosas organizações.

Para saber como adquirir o livro, clique aqui ou envie um email para valdirene@aberje.com.br

Um beijo, Adriana (parte 2)

Continuação dos emails trocados com Neo, personagem real ou fictício que assumiu, mesmo sem saber, papel de terapeuta em relação aos meus atribulados pensamentos.

Dor de amor

Ainda não consegui sair da tristeza que me acomete há uma semana. Dor de amor. Estou tentando aprender que não posso ter controle sobre tudo e que nem sempre as coisas acontecem como eu gostaria.
Tenho uma vida maravilhosa, sou inteligente, bonita, rodeada de bons e sinceros amigos. Nos últimos meses acreditei ter encontrado o homem com quem iria dividir a minha vida, que disse que jamais desistiria de mim. De repente, ele parece ter desistido. Por que será que as pessoas dizem coisas se sabem que não vão manter sua palavra? Sei que sou uma mulher forte e que dor de amor tem cura, mas estou triste demais.

London, London

Londres é uma cidade incrível. Vivi experiências memoráveis por lá. O mais radical que fiz foi conhecer o mercado de rua Candem Town e beijar um colega de classe embaixo de uma árvore de Natal gigante em um outro lugar do qual não me lembro o nome. Vi a troca de guarda duas vezes e numa delas a banda da rainha tocou Beatles. Brinquei no labirinto de castelos e vi o sol se por sobre o Tâmisa. Vi o BIG EYE sendo construído e quer saber mais? Minha vida tem momentos incríveis e só de ter vivido tanta coisa boa tenho milhares de motivos para ser feliz e seguir em frente, colando mais uma vez um coração partido.
Londres é uma cidade com alma de gente livre.

Chove lá fora

Está chovendo forte e dirigi do trabalho até em casa com bastante cuidado. Esta foi a primeira coisa que pensei quando ouvi a música. Não era uma chuva de cor púrpura, mas uma chuva forte e que sempre me assusta um pouco. Não gosto muito do Prince. Está música me lembra filme noir, escuro, com cenas obscuras, becos escuros cheios de olhos brilhando que procuram por algo ou alguém.
Nunca prestei atenção na letra. Só no Purple Rain, Purple Rain... Chove lá fora e aqui faz tanto frio... Também me lembro desta música por causa da chuva.
Coloquei de novo para prestar atenção na letra. Já reparou que ninguém nunca quer fazer mal para a gente, mas acaba fazendo? Que quando a gente ama não quer magoar o outro, mas magoa? Ádoro a imagem de querer ver o outro dando risada debaixo de chuva. Eu adoro andar na chuva, me leva para a infância. Eu vivia brincando na enxurrada e perdendo chinela havaiana. Minha mãe não vencia comprar.
Estava procurando uma foto que tirei no Natal e que mostra um momento de felicidade completa, destes em que a gente acha que está apenas brincando na chuva, mas não achei. Está em papel. Bem, estas são as coisas que me passam pela cabeça. Estou ouvindo a música pela terceira vez.

Corra, Adriana, Corra...

O mundo está realmente se tornando cada vez mais acelerado e tem momentos em que a gente acredita que não vai conseguir se encontrar em meio a tanta informação, tanto o que fazer e tão pouco tempo. Acredito que o mundo é uma cadeia de pessoas e fatos que se relacionam.
Depende de mim. Hoje estava ouvindo no CD uma velha canção dos meus tempos de criança, que abria o programa " Balão Mágico". Falava mais ou menos assim: "Depende de nós / quem já foi ou ainda é criança / que acredita e tem esperança / quem faz tudo para um mundo melhor..."
Tudo depende de nós. Por que será que a gente perde a criança interior que acredita que tudo pode, que tem o poder de fechar os olhos e viajar para um mundo mágico? Sempre penso em você quando vejo uma árvore florida. Elas continuam lindas enfeitando esta terra que amo tanto.

Ipês já enfeitam a cidade


Nos próximos dias, quando for caminhar em Uberlândia, comece a prestar atenção na paisagem. Belos ipês cor de rosa já enfeitam nossas ruas, com seus cachos suaves, que contrastam com o céu imensamente azul das manhãs de quase inverno.
Os meus favoritos são os da Segismundo Pereira, no bairro Santa Mônica, onde moro. No Alto Umuarama, onde ficam várias empresas de prestação de serviços, numa gigantesca área verde que aos poucos vai sendo invadida pela cidade, eles também colorem a paisagem. Na Rondon Pacheco, alguns enormes e antigos ipês vão aos poucos trocando os galhos secos pelas cores alegres das plantas. Pena que um deles teve que ser "transplantado" para o Parque do Sabiá para que o shopping pudesse colocar umas palmeiras por enquanto horrorosas em sua nova entrada... Coisas da modernidade.
Está aberta a temporada dos ipês. Roxos, amarelos, rosa, brancos, eles colorem o céu da cidade. No centro, nos bairros, nos parques, nos clubes, os cachos coloridos enfeitam a nossa terra fértil. Mas é preciso apreciar rapidamente, porque ipês florescem de forma efêmera. São poucos dias de beleza, estendidos um pouquinho graças aos tapetes coloridos que se formam quando as flores caem.
Há muitos anos tive um namorado que me chamava de "Flor de Ipê". Ele nunca havia visto uma dessas árvores, a não ser em fotos (era estrangeiro), mas conseguiu criar um apelido carinhoso que sempre me marcou muito. A flor do ipê sabe que seu encanto é passageiro, se prepara para brotar e, quando o faz, é para deixar uma marca de beleza e sensibilidade. Ter alma de ipê é saber que tudo passa, que precisamos nos preparar para nosso espetáculo, seja em que área for.
Mais uma vez, "Vê, estão chegando as flores".

Para meu amigo Zé Geraldo, que também ama os ipês e estava ao meu lado quando tirei essa foto.
E para César Centeno, que um dia aprendeu a gostar deles também. De vez em quando sinto saudade.

Para que tanto papel?

Todos os dias "brotam" em minha caixa de correio ou debaixo do portão da garagem vários panfletos de supermercados, cobertos de ofertas sobre os mais variados itens (muitos dos quais eu nem consumo). As vezes são folhetos pequenos e simples, que utilizam apenas uma folha de papel. Outras vezes são jornais de ofertas, com várias páginas, todas coloridas, alguns produzidos até em papel mais sofisticado. Tem dias em que um mesmo folheto brota na caixa do correio, embaixo da porta e, se deixo o carro na rua, fixado ao meu para brisa.
O destino de todo esse papel é a pilha de reciclagem, que mantenho há algum tempo. Quinzenalmente, tenho o trabalho de ir até a estação de coleta de lixo do Extra e depositar tudo lá, naqueles containers que estão sempre desorganizados. Mas já tratamos disso aqui. Esse não é o problema.
Fico pensando que os estrategistas de marketing deveriam começar a se preocupar com o alto consumo de papel que esta prática meio "cega" de comunicação com os consumidores acarreta. Eu nunca olho os encartes jogados em minha casa. Quando uso, é para catar as caquinhas da minha cachorra.
Compro sempre no mesmo supermercado, o Carrefour do Center Shopping, que aliás é um dos que depositam papel em minha garagem. Há mais de dez anos, religiosamente, faço compras lá nas manhãs de domingo. Alguns caixas já me conhecem, sabem que levo minha própria sacola. Outros olham no meu cartão e me chamam pelo nome.
Há dez anos eu faço minhas compras no mesmo lugar e o Carrefour não faz a mínima idéia sobre quem sou eu. Nunca recebi um contato pessoal, nunca cadastraram meu email nem me perguntaram se eu gostaria de receber tanto papel jogado na minha garagem. Uma vez o cara que fica na porta da loja me obrigou a plastificar minhas sacolas ecológicas, um absurdo sem tamanho. Reclamei, mas ele me obrigou. Até hoje entro com as sacolas como se fossem minha bolsa, para ele não me barrar de novo!
Penso que falta coerência às ações empresariais voltadas para sustentabilidade e consumo responsável. Falta aos grandes supermercados conhecer seus clientes e estabelecer parâmetros de relacionamento diferentes com eles. Se eu, como indivíduo, procuro levar uma vida mais simples e sustentável, quero me relacionar com estabelecimentos que fazem o mesmo.
Mas sei que as práticas de marketing são meio aleatórias e buscam "capturar" o consumidor de diversas maneiras. Para o Carrefour, provavelmente eu não passo de mais um ticket semanal. Penso que na maior parte das vezes, somos apenas números para as organizações. Elas não se importam se consumimos apenas o necessário, se recusamos sacolas ou queremos menos papel desperdiçado. O que importa é a "bottom line" de seus balanços.
Está na hora do discurso ser mais coerente com a prática. Como o próprio Carrefour diz, está na hora de "usar a Cuca" e cuidar melhor do nosso planeta.