1 de mai de 2010

Você sabe com quem está falando?


O antropólogo Roberto DaMatta, se não me engano no livro "Casa Grande e Senzala" ou em "Carnavais, malandros e heróis", destacava o velho hábito brasileiro das pessoas que se julgam melhores que as outras e vez ou outra sacam da língua afiada um "você sabe com quem está falando?". Segundo DaMatta, isso é um dos infelizes traços da cultura brasileira, usado por diferentes extratos sociais, de acordo com a ocasião e a necessidade de quem usa a expressão.
Hoje pela manhã, ao conversar com uma senhora a quem admiro muito, ela me contava um desses episódios, em que uma paciente teria "sacado" essa arma verbal contra uma profissional da área da saúde que havia se recusado a prestar um serviço por um valor abaixo do seu preço de custo. Nervosa e grosseira, a (in)paciente não apenas disse a frase "Você sabe com quem está falando", como também levou a profissional para uma audiência com seu parente poderoso, no caso, alguém do Ministério Público. Na audiência, a autoridade teria tentado forçar uma decisão favorável à sua parente, mas todos os argumentos da profissional demonstravam que ela estava com a razão. Terminada a contenta, ninguém mais tocou no assunto. Gastou-se dinheiro e tempo de um servidor público para resolver um problema privado. Tudo por causa de uma pessoa irracional, que ao não ser atendida em sua sovinice, resolve usar seu "poder" para ameaçar uma profissional que estava no seu direito de cobrar o valor justo pelo seu trabalho.
Quem me contou essa história é uma senhora, que viu sua família envolvida em uma briga sem pé nem cabeça, movida por uma pessoa arrogante e incapaz de resolver um conflito de maneira educada. Fico estarrecida com a quantidade de pessoas, aqui mesmo, em nossa cidade, que recorrem ao velho termo do tempo dos "coronéis", para tentar valer sua vontade, independente dos direitos e vontades dos outros. Nessa semana, no twitter, foi postado que uma pessoa dirigindo um carro da Setran estava falando ao celular. Nós mortais, seríamos multados. O motorista em questão, se parado, talvez repetiria: "Você sabe com quem está falando?". Há algum tempo, uma série de homens públicos teve suas multas "aliviadas" pela Secretaria de Trânsito e Transporte. O responsável foi afastado temporariamente do cargo, mas retornou e provavelmente, a quem o interpela, deve sacar também do termo.
Precisamos atuar de maneira mais cidadã. Registrar os abusos, não aceitar a arrogância, assumir nossos direitos. Ao ouvirmos um "você sabe com quem está falando?" temos que responder: "Sim, estou falando com uma pessoa de carne e osso, com sentimentos, história, família... uma pessoa igual a mim em direitos e deveres".

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