1 de dez de 2010

Meu lugar

Imagem do site do artista brasileiro Romero Brito
Alguma vez você já se sentiu completamente deslocado em um lugar que deveria te acolher? Já sentiu que não pertence a um lugar onde sempre esteve? Ou que não consegue mais um pequeno espaço naquele lugar que um dia foi seu ninho? Dia desses me senti assim. Como se eu não pertencesse a um lugar ao qual deveria pertencer. Um lugar familiar, aconchegante, acolhedor, mas ao qual eu não pertenço mais.
Todos nós temos o dom de conquistar nosso lugar no mundo. E nesse caminho, vamos nos afastando daquele lugar que já foi nosso um dia, mas já não é. Isso acontece quando saímos da casa de nossos pais em busca de nossos sonhos. Quando deixamos o conforto do lar, os cuidados da mãe e do pai, o companheirismo dos irmãos e partimos, mochila nas costas, peito aberto para conquistar o mundo. Acontece também quando saímos de um casamento, mudamos de cidade ou de país ou resolvemos morar com outra pessoa.
Neste caminho, nem tudo são flores. A gente fica sem lugar mas pensa sempre naquele canto que deixou para trás. Se algo der errado, ainda pode voltar para lá. Como na velha canção do Roberto Carlos, onde o cachorro lhe sorriu latindo. E vamos passando de canto em canto, conhecendo novas pessoas, novos lugares. Dormindo em qualquer canto, dividindo o quarto com gente estranha, morando sozinho, com amigos, com família de novo, algumas vezes morando com aquele que deveria ser nosso amor para sempre. E talvez seja.
A inquietude e a busca pelo nosso lugar continua. Cada passo nos distancia mais e mais daquele lugar da infância, que era tão nosso. Tão certamente nosso. O primeiro emprego aumenta a distância. Relacionamentos amorosos aumentam a distância. Filhos aumentam a distância. O tempo aumenta a distância. Quando a gente olha para trás, aquele lugar ainda está lá, mas deixou de nos pertencer há tempos. Isso porque nosso lugar é aqui, agora.
O lugar do presente pode ser povoado de amigos, amores, filhos, plantas, cachorros, alunos. Pode ser povoado de amor. Pode ser povoado de solidão. Pode ser embalado pela voz de Elis Regina ou Frank Sinatra. Pode ser enfeitado com coloridas gérberas. Pode conter em suas estantes as palavras de Caio Fernando Abreu travando duelos semânticos com Fernando Pessoa.
Quando a gente finalmente perde o lugar ao qual pertenceu um dia, dá uma grande vontade de chorar. Mas dá também uma vontade imensa de comemorar. A perda do lugar passado significa que assumimos definitivamente o lugar presente. Aquele onde fazemos amor à luz da lua, onde dançamos apaixonados ao som de Everytime We Say Goodbye, onde tomamos uma garrafa de vinho sentados no chão da sala, onde conversamos com a alma gêmea sobre como seria nossa vida se tivéssemos escolhido outros caminhos, onde passamos 24 horas seguidas estudando, onde cozinhamos novas e velhas receitas, onde recebemos amigos.
O lugar presente é o melhor lugar, onde quero estar hoje, agora, compartilhando comigo mesma o prazer das palavras, do gosto suave da minha Bohemia, o perfume das flores e do vento com cheiro de chuva. Eu pertenço a esse momento e ele é tudo que importa. Assim, fica menos triste a dor de não pertencer mais às sombras dos lugares passados. 
Em homenagem a este momento em que não quero mais voltar ao lugar passado, a música de Roberto Carlos, O Portão, na propaganda da Cofap, já que Belarmina faz parte do lugar presente. Quem quiser entender, assista. Clique aqui e mate saudade.

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