1 de mar. de 2011

Viver com sustentabilidade é legal

Caminhão que faz a coleta seletiva
Fonte: site da Prefeitura Municipal de Uberlândia
Já tem pouco mais de um mês a coleta seletiva no bairro Santa Mônica, onde moro. Estou achando o máximo, honestamente. Várias vezes já escrevi aqui sobre os postos de coleta do Extra e do Carrefour, ambos sempre sujos e desorganizados, com mais lixo inútil do que útil. Agora, semanalmente descarto o material reciclável sem sair de casa, colocando-o na minha lixeira.
Faço minha parte. Lavo tudo antes de descartar. Deixo secar e só depois coloco no cesto de lixo. Às terças, minha ajudante já coloca tudo em um saco e deixa lá fora. Normalmente a coleta é à tarde, mas a gente já deixa porque a musiquinha do caminhão engana.
Outra coisa que acho bacana é a participação da vizinhança. Todas as terças a gente percebe o movimento diferente. Os catadores, algumas vezes, passam antes do caminhão e tentam pegar o "filé", que são garrafas pet e latinhas de alumínio. Mas o número diminuiu muito.
Ensinei a Maria, que cuida de mim há anos, a lavar todas as embalagens antes de descartar. Ela, como muitas pessoas, pensam que basta separar o lixo reciclável do orgânico, mas não é só isso. No caso de caixas de leite ou suco, por exemplo, se a gente não lavar e tirar o excesso de água, o líquido pode apodrecer lá dentro, contaminar outras embalagens e até mesmo virar criadouro para moscas. Eu normalmente corto a parte de cima, lavo com água e sabão, enxugo e descarto. Faço o mesmo com latinhas, sacos plásticos, litros de amaciante, qboa, etc. O jornal eu mesma reaproveito, por causa dos cachorros. Atualmente, minha casa gera mais lixo aproveitável que orgânico. Evito também o desperdício, de maneira geral. Tudo o que pode ser reaproveitado em casa mesmo, é reaproveitado. Vidrinhos de geléia viram potes para temperos. Potes de plástico maiores viram potes para guardar restos de comida ou para colocar água para os cachorros. Alguns viram vasinhos para as plantas.
Se a prefeitura finalmente está fazendo a parte dela, coletando o lixo reciclável, a gente tem que fazer a nossa, ao separar o lixo de maneira adequada, ao evitar o desperdício, consumir menos, comer melhor, gastar menos água e energia. Cada pessoa pode ter uma postura sustentável. É fácil e gostoso. Pequenas mudanças de hábito, individuais, que poderão fazer uma grande diferença para quem virá depois da gente.

“Este post está participando do Concurso Cultural “Iniciativa Verde”, promovido pela Algar Telecom, detentora da marca CTBC. Acesse: www.ctbc.com.br/sustentavel e saiba mais”.

Programas de acesso alternativo ou educação de qualidade? Qual deveria ser a verdadeira discussão?

Biblioteca do campus Santa Mônica
Fonte: www.biolab.eletrica.ufu.br  
Semana passada um tema tomou conta da imprensa local e também do twitter em Uberlândia: o Programa de Acesso Alternativo ao Ensino Superior (PAAES) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Na quinta-feira, depois de liminares judiciais e muitas farpas trocadas entre administradores de escolas particulares, Ministério Público, alunos, pais e professores, um grupo de jovens lotou a entrada do campus Santa Mônica para enfim poder se matricular em uma faculdade pública, cujo ensino é gratuito e espera-se, de qualidade.
Sou contra qualquer tipo de cotas porque acho que o problema não é diferenciar as minorias, com base em critérios de classe social, cor da pele ou tipo de instituição de ensino. Em minha opinião, o desafio é igualar os diferentes, fazendo com que crianças, adolescentes e jovens tenham acesso à educação de qualidade, que começa dentro de casa, passa pelo ensino básico e fundamental e vai até a vida acadêmica.
O sistema alternativo de acesso proposto pela UFU tem falhas. Mas as regras são claras. Só podem participar alunos que efetivamente estudaram em escolas públicas durante todo o segundo grau e parte do primeiro. Apesar disso, muitos jovens praticaram falsidade ideológica ao garantir que cumpriam este critério, quando na verdade estavam matriculados em escolas particulares. Classificados pelo PAAES, foram à justiça para garantir um suposto direito à vaga, mesmo sabendo que haviam feito uma declaração falsa.
Fiquei pensando com meus botões no tipo de profissionais que serão estes jovens, que declaram em falso para participar de um processo do qual não têm direito de participar, entram na justiça para garantir uma vaga em uma universidade pública à qual não têm direito. No futuro, quando participarem de um processo seletivo em uma empresa e por algum motivo não forem selecionados, coisa corriqueira no mercado, irão à justiça também? Aprenderão a conquistar as coisas no "grito"... ou com base em suas competências intelectuais?
Quem recorreu à justiça provavelmente participou também do Vestibular e foi reprovado. Ou seja, não estava qualificado a ingressar na universidade por meio do processo seletivo tradicional, mais difícil e concorrido. O mesmo vale para os alunos que têm o direito a participar do Processo Alternativo. Por um motivo comum, ambos estão despreparados para concorrer em condições de igualdade por meio do vestibular: a baixa qualidade do ensino, quer nas escolas públicas ou particulares. O baixo nível de aprendizado e formação dentro de casa, condição fundamental para que uma criança, por exemplo, desenvolva o prazer da leitura.
Tenho 42 anos. Exceto por uma série, todos os meus estudos foram feitos em escolas públicas, estaduais. Lembro-me com carinho do Educandário Pestalozzi, do Barão da Franca e da Escola Estadual Torquato Caleiro, estabelecimentos de ensino de Franca, onde vivi a maior parte de minha vida. Nos bancos dessas escolas tive professores como D. Isolema, que me fez adorar a língua portuguesa; D. Ulda, que me levou em longas viagens pela história do Brasil e da humanidade; D. Rita, que me ajudou a gostar de arte; Pepeu, que me ensinou contabilidade. Antes deles, tive meus pais como professores das letras, das artes, da vida e da cultura. Meus pais me ensinaram a amar os livros e respeitar as palavras. Venho de uma família de classe média, que passou dificuldades financeiras, mas que valorizava imensamente a cultura, a educação, a formação dos filhos.
Hoje, infelizmente, os pais pagam para que os filhos sejam educados, mas se envolvem pouco porque eles mesmos lêem pouco, vão pouco ao cinema, ao teatro, viajam pouco na imaginação das crianças. Melhor assistir Big Brother a ler juntos um livro de estórias, de poemas ou mesmo a Bíblia. Melhor aceitar que o filho declare em falso para poder participar de um processo mais fácil de ingresso à faculdade. Melhor contratar um advogado para garantir uma vaga na marra do que incentivar o jovem a estudar um pouco mais.
Quando chegou minha hora de prestar vestibular, há 20 anos, nem se cogitava a possibilidade de pagar faculdade particular. Era pública ou nada. Não consegui passar na USP, que era o que queria, mas passei em Londrina e fui, sozinha, com pouca bagagem, pouco dinheiro e muita, muita vontade de aprender. Lutei sozinha muitas lutas. Senti medo, dor, tristeza, chorei muito, passei apertos, mas tudo valia a pena. Aprendi a me defender sozinha. Aprendi que para vencer eu teria que ser muito boa. Teria que estudar muito mais, ler muito mais, gastar muito mais tempo para assimilar conteúdos difíceis e novos. Por mais que pudesse contar com o apoio dos meus pais, a partir dali eu começava a fazer meu caminho.
Respeito o direito desses jovens de entrar na justiça para tentar garantir uma vaga na UFU. Mas daqui a pouco eles irão lidar com provas difíceis, com prazos apertados, com professores exigentes. Terão que se dedicar imensamente para acompanhar aulas, escrever trabalhos, fazer provas. Em quatro ou cinco anos, chegarão ao mercado do trabalho, onde disputarão vagas com jovens mais ou menos qualificados. Receberão algumas respostas positivas, outras negativas. E terão que lidar com elas com base em sua competência intelectual e emocional. Sem liminares na justiça, sem tentativas de burlar as regras.
Pensamentos que me afligem, visualizando a sociedade que iremos deixar para os que virão depois de nós.

27 de fev. de 2011

Caminhando e cantando


Skyline do Santa Mônica. Registro de minhas caminhadas.
 Adoro caminhar pela cidade. E Uberlândia é minha cidade. Onde escolhi viver há mais de 15 anos. Onde tenho amigos. Onde vivi histórias. Onde amei e fui amada.
Andar pela cidade, em especial pelo meu bairro, é sempre uma descoberta. A cada passo, um novo olhar sobre as mesmas coisas. Ora reflito sobre os problemas que relato aqui, como calçadas por onde não passam pedestres, lixos pelas ruas, trânsito péssimo. Ora reflito sobre as coisas que adoro, como as artes, a paisagem, o povo.
Quando mudei para cá, tive dificuldade de me adaptar, principalmente às pessoas. Hoje eu encontro em cada uma delas um motivo para um dedo de prosa. Pessoas que trocam sorrisos, que cuidam da gente, que olham com carinho. Pessoas que, muitas vezes, compartilham o amor pela cidade.
Era hora da gente cuidar melhor de Uberlândia. Fazer de nossa cidade um lugar melhor. Uma cidade mais humana, mais sustentável, mais ética, mais responsável. Diariamente a gente ouve notícias de vidas ceifadas, seja pela violência, seja pela irresponsabilidade no trânsito, seja pelas drogas. Ouvimos também falar de nossos políticos, que aumentam os próprios salários e se promovem à custa do erário, sem contribuir para que a cidade melhore de fato. Melhoram seus bolsos, discursam sobre seu papel de defensores dos cidadãos, mas continua faltando escola, saúde, segurança... E olha que estamos falando de uma cidade privilegiada.
Em minhas caminhadas, volta e meia me perco a olhar para a paisagem que se descortina diante dos prédios que insistem em subir, subir, subir. Hoje, particularmente, fui presenteada com as cores do céu registradas na foto que ilustra essa postagem. Nas cores desse céu inspiro meu texto, que anda tão faltoso nestes dias em que preciso concluir minha dissertação de mestrado.
Uberlândia, eu amo essa cidade. Como Uberlandina, considero-me uma cidadã permanente daqui. Ainda me encanto com as belezas, sem deixar de enxergar os problemas. Ainda caminho pelas ruas, embora seja escrava do carro. Ainda cumprimento as pessoas, embora elas nem sempre sorriam de volta. Quer saber? Vivo feliz aqui. E espero que continue assim.

23 de jan. de 2011

Calçadas são para pedestres?

Eventualmente, vejo um rapaz na cadeira de rodas que passa pela minha rua disputando espaço com carros, motos e bicicletas. Ele vai pela rua mesmo, sem nem tentar andar pelas calçadas. Isso não me surpreende. Ao caminhar pelo meu bairro, muitas vezes sou obrigada a andar pela rua para evitar obstáculos como árvores, lixeiras, mato crescendo, lixo.
Hoje, no final da tarde, resolvi passear pelas ruas do bairro com a intenção de fotografar algumas situações onde uma cadeira de rodas simplesmente não passa. Outras em que as pessoas foram sensatas ao colocar lixeiras e plantas. Vi um pouco de descaso, como árvores sem podar, que atravancam a passagem do pedestre, quanto mais daquele que precisa de cadeira de rodas para se locomover.
São imagens que sempre vejo, mas depois de observar o rapaz que passa pela minha rua, tentei ver com os olhos dele. Pensei na largura necessária para uma caderia de rodas, na altura em que árvores e lixeiras deveriam ficar para permitir sua locomoção. Desconheço a legislação a respeito de árvores, lixeiras e calçamento, mas penso que todos deveríamos mudar nossas atitudes.
Há algum tempo, cadeirantes eram praticamente "escondidos" por suas famílias. Hoje, trabalham, estudam, conquistaram mobilidade. Mas nossas cidades ainda não são pensadas para eles. Nós, como cidadãos, não cuidamos de nossas árvores, lixeiras e calçadas. A prefeitura provavelmente estabelece normas, mas encontrei árvores no meio exato de calçadas e lixeiras que ocupam mais da metade da passagem.
Precisamos tentar resolver isso juntos. Em minhas imagens, fotografei também alguns exemplos legais, de gente que planejou sua casa e sua lixeira pensando em não atrapalhar a calçada. Um outro ponto é que a Prefeitura me disse, via twitter, que os lixeiros só recolhem o lixo deixado nas lixeiras, o que faz com que elas se tornem cada vez mais comuns pelas ruas da cidade, mesmo que inadequadas.

ÁRVORES E PLANTAS

Essa calçada tem três palmeiras enormes. Estranhamente, possui duas rampas de acesso para cadeirantes. Ele até conseguiria subir na calçada, mas não passaria pela base das palmeiras, que são bastante grossas. Além disso, constantemente caem cascas da palmeira, que ficam dias e dias jogadas na calçada. O lixeiro não recolhe. O morador não recolhe. De que adiantam as rampas?





Nessa calçada, o desafio é passar pelo estreito espaço entre a árvore e as plantas, que até são bem cuidadas, mas uma pessoa não consegue passar ali caminhando. Imagine em uma cadeira de rodas? Impossível.

Essa me assustou mesmo! A árvore, em frente a um prédio, foi plantada exatamente no meio da calçada. Devem ter usado até uma fita métrica para calcular onde seria feito o buraco. Fiquei espantada quando vi! Uma cadeira de rodas não passa nem pela direita, nem pela esquerda.
Essa daqui eu tirei no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, há alguns meses. Dá para perceber a diferença? Calçadas largas, marcação para auxiliar deficientes visuais, padronização, árvores próximas ao meio fio e protegidas por borda. Será que não dava para tentarmos algo similar?



LIXEIRAS


O problema aqui é a largura da lixeira. Quando a gente passa a pé, mal cabe uma pessoa, mas ficamos bem acima do nível do lixo. Pelo menos um adulto. Na cadeira de rodas, o cadeirante iria passar com a cabeça bem próxima ao lixo, uma vez que a lixeira é bastante larga. Crianças também. Eca!





Essa é bem parecida com a anterior. Se um cadeirante tiver que passar por aqui, até tem espaço na calçada, mas ele passará bem perto do lixo. Pertence a um prédio e estava cheia, apesar do dia do lixeiro ter sido ontem!

Esse é outro problema dessas lixeiras nas calçadas, os moradores não respeitam os dias do caminhão da limpeza pública. Além de conviver com os obstáculos na calçada, temos também que conviver com a sujeira. Imagina para uma cadeira de rodas passar aqui? Passo com frequência por essa e está sempre assim...







Olha que bacana este exemplo? O muro foi construído de modo a deixar o espaço para a lixeira ficar embutida, sem atrapalhar quem passa pela calçada. Muito legal!









Nesse outro, o morador combinou árvore e lixeira. Ela é alta o suficiente para que um cadeirante possa passar sem ficar no mesmo nível do lixo. A árvore crescerá direcionada. Um exemplo de quem pensa em suas necessidades e na dos outros. Esteticamente nem ficou tão legal, mas a cidadania vem em primeiro lugar.




20 de jan. de 2011

Sáloa Farah: uma voz marcante cantando samba

Imagem disponível para divulgação
no site www.saloafarah.com.br
Hoje passei o dia ouvindo Sáloa Farah, uma descoberta musical que acabei de fazer. Dona de uma voz maravilhosa, a cantora carioca canta samba de uma maneira única, porque o timbre de sua voz lembra mais o de uma cantora americana de jazz.
Ela se apresentou em Uberlândia no lançamento da revista Cult, no London. A platéia era pequena. Algumas vezes, mais barulhenta do que deveria ser. Um show intimista, onde foi quase impossível assistir sem batucar na mesa ou sambar em pé. Em alguns momentos fomos transportados para a Ipanema de Tom e Vinícius. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça. Um talento novo na MPB.
Um amigo publicitário com quem conversei durante o show definiu-a de modo especialmente belo. Me disse que, ao fechar os olhos e ouvir a voz poderosa, ele viajava para outro lugar, onde cantava uma negona de 120 quilos, arquétipo das cantoras do jazz (com todo respeito!). Acontece que a cantora brasileira é também dona de uma plástica invejável. Impossível não pensar: onde cabe tanta voz?
Não sou expert em música. Simplesmente gosto de música. Gosto de boas letras. Gosto de boas vozes. Há alguns anos encantei-me pelo timbre de Zélia Duncan quando assistia a um programa na TV Cultura. Ana Carolina também assisti no London, bem antes da fama. Sáloa Farah foi uma feliz descoberta, promovida pela revista Cult.
Uberlândia precisa de eventos como esse. Sou apaixonada por música boa. Em especial por música brasileira. Não sou fã de música sertaneja, mas reconheço que algumas são belíssimas. Não gosto de funk e rock pauleira. Adoro MPB, mas tenho ouvido só coisa velha, porque falta buscar novos talentos. A Rádio Universitária, que adoro, sempre toca cantores locais. Gosto disso e acho que devia haver mais espaço para música de qualidade. Existe uma ditadura da mídia que pode ser cruel. Apenas o que ela dita como sucesso vira sucesso. Porque estamos meio fechados ao novo, embora haja tantas janelas abertas para o mundo, em especial pela web.
Para quem quiser conhecer um pouquinho melhor, visite o site de Sáloa Farah - http://www.saloafarah.com.br/. Tem uma amostra do último CD, "De cartola e de tamanco". Foi esse que passei o dia ouvindo. Quem preferir, achei um clipezinho no youtube. Clique aqui para assistir. E quando tiver a oportunidade, vá conferir. Vale muito a pena!

15 de jan. de 2011

 Hoje eu vou mudar

Todos os anos, na primeira semana, faço uma mega limpeza em casa. Uma limpeza que envolve, principalmente, tirar o velho e abrir espaço para que o novo possa entrar. Novas energias, principalmente. Organizo estantes, gavetas, cds, o quartinho da bagunça. Tenho um princípio: se não estiver usando algum objeto pelo período de um ano, se nem olhei para ele, é porque não me serve mais, está apenas ocupando espaço.
Há exceções, como as roupas de frio que ficam armazenadas nas malas, vestidos de casamento e sapatos de formatura. Tem também aquela velha máquina de datilografia, que comprei com meu primeiro salário de jornalista (uma relíquia!). As cartas trocadas com amigos na época da faculdade. Os velhos diários. Fotografias amareladas pelo tempo...
Como saber o que fica e o que sai? Como saber se posso jogar fora ou doar aquela roupa, aquele sapato? Como decidir se jogarei fora os velhos diários? As roupas fora de moda ou que não me servem mais? Que critério adotar para reforçar aquele que já tenho e que nem sempre cumpro?
Não sei. Jogo muita coisa fora, dou muitas coisas para quem precisa. Tanto que agora, fui olhar o que poderia doar para os flagelados das enchentes no Rio e não encontrei nada. Nem roupas, nem sapatos. Vou doar em dinheiro, acho que pode ser mais útil.
A limpeza de casa sempre me faz pensar na faxina que preciso fazer em meus sentimentos, em minha alma e em meu coração. Há tristezas e mágoas que quero muito jogar fora, sem nunca olhar para trás. Há lembranças que brigam por um espacinho, que me pedem para ficar mais um tempo. Há alegrias tão grandes que são cuidadosamente embaladas em papel de seda perfumado, guardadas cuidadosamente em gavetas da alma. Há pouquíssimos arrependimentos, mas eles existem e ficam lá, na fila esperando para serem jogados fora. Há muitas conquistas, pessoais e profissionais, que me mostram do que sou capaz. Essas eu guardo em um portfólio do qual lembro de tirar a poeira de vez em quando.
Há também os sorrisos, as histórias de amor felizes, os momentos de prazer, as viagens, as alegrias e as lágrimas em família, a criança que fui, os cachorros da infância, as músicas do meu pai que eu reinvento algumas vezes, o colo da minha avó. Há o medo da morte em momentos extremos. O sentimento ambíguo em relação à solidão, que ao mesmo tempo me atrai e me repele. Há o medo do desemprego, de deixar de ser independente, de perder quem amo. Futuro mistura com presente.
Objetos e sentimentos se misturam nessa faxina anual. Coisa de gente organizada que sou. Das coisas me desapego fácil. Das memórias nem tanto. Leio mensagens que falam na importância de virar a página, deixar para trás e crer na beleza que há nos recomeços. Hora de abrir espaço nas gavetas do coração. Jogar as velhas mágoas fora e deixar que o novo entre. Desaprender os velhos medos e a arte de levantar barreiras.
Tem uma música bem antiga, da sempre maravilhosa Vanusa, que diz assim: "hoje eu vou mudar, vasculhar minhas gavetas, jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos". Adoro esses versos e sempre que vasculho as gavetas da alma penso nela.
Lembro-me também do meu querido amigo Marcelo Couto, que tem uma frase que adoro: "Estão fazendo faxina para o céu e mandaram todos os anjos aqui para a terra". Se algum anjo por acaso estiver lendo este texto, tem espaço livre aqui. Vem?

Algumas músicas são clássicas. Alguns artistas nos marcam. Essa canção de Vanusa é uma delas. A letra tem muito a ver com o que escrevi. Mudanças, com Vanusa. Clique aqui. O vídeo é meio brega, mas a letra vale a pena em momentos de faxina em nós mesmos.