2 de jun de 2010

O espetáculo que meus olhos viram

No último sábado, 19 de junho, tive o privilégio de assistir a uma apresentação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, com patrocínio da empresa uberlandense CTBC e apoio da prefeitura municipal. Centenas de pessoas foram às obras do novo teatro da cidade, na avenida Rondon Pacheco, numa noite quase fria de outono, com a Lua Crescente por testemunha, apreciar um pouco de música clássica, popular, universal.
Sentei-me bem à frente, na quarta fileira. Meus ouvidos assistiram a um espetáculo. Meus olhos viram vários. Minha mente viajou por tantos outros, gravados no passado. Meus ouvidos foram presenteados com peças clássicas e populares da mais alta qualidade, começando com o Hino Nacional, passando por Romeu e Julieta, chegando ao êxtase em "O Guarani" e terminando com o "Tico tico no fubá" mais original ao qual já assisti. Fui às lágrimas inúmeras vezes, de pura emoção. Era tanta, a emoção, que parecia que o coração nem cabia no peito.
Meus olhos viram outro espetáculo. Viram pessoas embevecidas. Pessoas que eram todas olhos, ouvidos, sorrisos, experiências individuais, onde foram levadas em suas mentes para lugares muito particulares. A palavra embevecer, tão pouco usada nos dias de hoje, significa ficar em êxtase, ser arrebatado, cativado, encantado. Em algumas peças, ao invés de olhar para o palco, eu olhava para os rostos embevecidos das pessoas. Era como se todas compartilhassem, magicamente, de um mesmo sorriso. Idosos, homens, mulheres, crianças, todos enlevados pela música, transportados em uma nave feita de clave de sol para o Planeta Música, onde habitam Mozart, Carlos Gomes, Tchaikovsky, entre outros.
Meus olhos viram uma belíssima quebra de protocolo, quando crianças que estavam em pé ao lado das cadeiras, começaram a sentar-se no chão, em frente às cadeiras colocadas para os convidados considerados importantes. Crianças que se sentaram aos pés da primeira dama de Uberlândia, da presidente da Associação Comercial, de diretores de empresas. O movimento começou com uma, depois outra e outra e outra. Alguns adultos se arriscaram e aos poucos o chão virou espaço nobre. Aquelas crianças assistiram ao espetáculo, literalmente, de camarote. Ser criança é tudo de bom!
O mais legal foi que ninguém impediu. O gesto foi natural. E a arte é isso. Se "a praça é do povo, como o céu é do condor", como dizia Castro Alves, o chão daquela praça do teatro era das crianças e elas prazeirosamente se apossaram dele. Foi lindo de ver. Elas quietas, apreciando música clássica. Muitas imitavam o maestro, com suas batutas imaginárias levantadas ao céu. Talvez daquele momento, tão próximo, surjam futuros musicistas.
Outro gesto lindo foi o do presidente da Orquestra. Sentado na primeira fila, ao ver uma mulher se sentando no chão, com uma criança no colo, ele levantou-se e convidou-a a sentar no lugar que ele ocupava. Dá para imaginar isso na nossa cidade? O gesto merecia ser aplaudido, mas poucas pessoas o viram. Neste momento, eu fiquei embevecida. Ela assistiu ao espetáculo com seu bebê, ambos embalados pela música e por uma coisa tão simples, talvez até fora de moda: gentileza.
Arte é algo que deve voltar-se às pessoas. A apresentação de sábado mostrou isso. Foi um presente para a cidade. Um presente proporcionado pela CTBC e pela prefeitura. O novo teatro tem fome de arte. Ele pede para ficar pronto.
Ao término da apresentação, eu havia me emocionado muito, chorado muito, me sentido muito grata pela vida e por estar ali, naquele singelo momento da mais pura felicidade.

Este texto é minha forma de agradecer e reconhecer a todos que possibilitaram este maravilhoso espetáculo. E à minha amiga Margareth, que esteve ao meu lado e se embeveceu tanto quanto eu.

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