30 de out de 2010

Faz um milagre em mim


Hoje acordei com uma forte presença religiosa. Um forte sentimento de gratidão a Deus por tudo o que ele me proporciona na vida. Logo cedo, na missa, o tema do Evangelho era a história do cobrador de impostos Zaqueu, homem de pequena estatura, que se afasta da multidão e sobe em uma árvore para ver Jesus. Este, ao avistá-lo, avisa que é em sua casa que buscará repouso. Faz-se silêncio seguido de exclamações admiradas porque Jesus escolheu para abrigar-se a casa de um pecador.
Nos tempos de Jesus, os cobradores de impostos eram escória, porque enriqueciam à custa da exploração dos mais pobres. Hoje esses são os homens que governam nosso destino. Mas a história de Zaqueu traz o milagre da conversão, o milagre da transformação de uma vida que se dá mediante o perdão. Faz-se um milagre na vida e nas atitudes do cobrador de impostos.
Muitas vezes, nos nossos tempos modernos, nutrimos rancores profundos e eternos por pessoas que nos magoaram, muitas vezes elas o fazem sem querer. Acredito que poucos são aqueles que magoam a alguém que amam porque realmente querem magoar. Ontem assistia a um filme na TV sobre um homem viciado em assassinar pessoas. Um psicopata frio e sanguinário, mas que se remoía por dentro a cada crime e tentava com todas as suas forças não matar mais. Um bom filme, marcado por um transtorno psíquico que me levou a refletir sobre a minha capacidade de cultivar pequenos rancores.
Sim, ao longo do meu caminho, fui magoada muitas vezes. Algumas por pessoas distantes, outras vezes por pessoas próximas. Algumas vezes me afastei. Outras consegui voltar a conversar, perdoar, esquecer, reatar laços. Muitas vezes magoei pessoas, disse coisas duras, fui fria, distante, má. Não sei se fui perdoada, preferi esquecer, apagar a página e seguir adiante.
Há mágoas que ficam guardadas em gavetas da alma, muito bem fechadas. Aquelas que foram causadas sem que a gente conseguisse encontrar explicação. Aquelas aonde o outro prefere calar para sempre, afastar-se, fugir do enfrentamento de uma conversa que pode ser dura, mas capaz de aliviar um coração. Há mágoas que separam amigos para sempre, pessoas que se admiravam, que se ajudavam, que se gostavam. Há mágoas que matam o amor mais bonito que se viveu, pela dor insuportável do abandono. Há mágoas que se plantam por palavras ditas na hora errada, do jeito errado. Há mágoas que nunca serão corrigidas porque foram vencidas pela morte.
Talvez, assim como Zaqueu, a gente tenha que esquecer do quanto é pequeno, correr para a árvora mais alta e tentar rever as mágoas, tentar resgatar os relacionamentos que valem a pena, tentar ser mais humano, mais gente. Pode ser que esteja particularmente marcada por um dia que começou com uma missa muito bonita e por uma música cujo refrão falava "Porque o Senhor é meu bem maior / Faz um milagre em mim". Quero um milagre em mim. De ser mais gente, mais humana, mais humilde para pedir desculpas àqueles a quem magoei e perdoar àquele que me magoou porque um dia levou um pedaço do meu coração e nunca mais me devolveu.
Faz um milagre em mim.

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