1 de jan de 2011

Força da semente

Tenho um jardim em casa. Pequeno, mas bem cuidado. Nele cultivo plantas maiores, como uma pata de elefante belíssima, que ganhei de presente de aniversário. Ou um pinheiro que ganhei pequenino em um evento. Hoje está enorme.
Costumo também colocar em meu jardim os vasos que compro em supermercados, depois que eles param de dar flor. Semanalmente compro violetas, gérberas, calanchoês, crisântemos, lírios, azaléas, begônias, micro rosas. Alternadamente. Adoro decorar a casa com flores. Elas trazem cor, alegria e boas energias.
Meu jardim combina as plantas maiores com estes vasinhos. Alguns, como os calanchoês, costumam sobreviver. Eu os replanto em vasos maiores e eles continuam florindo. As violetas dão flor o ano inteiro.
Quando resolvo replantar alguma flor, uso vasos maiores, com terra de vasos antigos. Tenho um manacá da serra cercado de violetas na base do tronco. Um pinheiro com trevos de quatro folhas.
Dia desses, surpreendi-me ao encontrar um botãozinho verde em um desses vasos mixados. Ele pertencia a uma orquídea, mas plantei um lírio aproveitando a terra. Quando vi o botão verde, fiquei em dúvida se ele era uma orquídea ou um lírio. Resolvi observar. A cada dia que passa, a planta está mais bonita e com mais cara de lírio. O vasinho que outrora se escondia entre as plantas principais do jardim, agora ganhou espaço nobre e é observado todos os dias. Pareço uma criança olhando para a mudinha de feijão da aula de ciências.
Ao observar minha plantinha, penso no quanto podemos nos comparar a ela. Normalmente, como pessoas, nascemos para enfeitar a vida de outras pessoas com nossa beleza, com nosso conhecimento, com nossa alegria. Somos flores abertas, exalando beleza e perfume.
Mas na vida de qualquer pessoa, nem tudo são botões de rosa. Existem espinhos. Existe o tempo de seca. Existe a tristeza, o abandono, a solidão. Existem momentos em que deixamos de dar flores porque perdemos as forças. Mal conseguimos cuidar da gente, quanto mais enfeitar a vida dos outros. Precisamos de recolhimento. Precisamos buscar energia em algum lugar. Somos esquecidos entre as plantas garbosas do jardim.
Existem pessoas que se recolhem ao esquecimento e efetivamente murcham. Enxergam naquele ostracismo apenas os aspectos negativos. "Deixei de ser flor". "Ninguém cuida de mim". "Fui abandonado para secar e morrer".
Outras pessoas vêem aquele período como tempo para buscar novas forças. Alimentam-se da água da chuva, do calor do sol, do humus das outras plantas. Pensam consigo mesmas que estão recolhidas, buscando alimento físico, mental e espiritual. Em breve voltarão a brotar.
Aí, um belo dia, quando percebem que não tem ninguém olhando, essas pessoas brotam. E se tornam belos botões. E se tornam belas flores. E se tornam belos frutos.
Quem acredita em si mesmo traz sua força na semente, não na aparência. Quando a semente é forte, as intempéries podem até chegar, abalar temporariamente a certeza das coisas. Mas elas são incapazes de destruir a força da semente. A beleza de quem sabe ser flor, nascida para encantar a vida dos outros.
Minha plantinha me deu uma bela lição.

3 comentários:

Anônimo disse...

nossa dri adorei esta crônica "força da semente" vou imprimir e trabalhar este texto com meu grupo de dependentes do hospital, que não se percebem mais como flor, onde a alma esta muchinha, muchinha, "por não suportar a própria dor que deveras sente" beijos sua irmã Alessandra

Anônimo disse...

CRONICA MARAVILHOSA, escrita por pessoa sensível, que acredita principalmente na beleza das flores para enfeitar a alma ! Que acredita inclusive na própria sensibilidade para poder penetrar no coração de pessoas que ainda tem alguma reserva de sentimento bom ! Obrigada amiga, por ter plantado essa "sementinha' no jardim de minha vida ! Que a "força da semente" esteja sempre com voce ! Beijos carinhosos. De alguém que, com certeza, terá muitos sonhos para realizar agora e sempre !

Adriana Sousa disse...

Não costumo comentar os comentários feitos para o blog, mas é muito gostoso saber que as palavras são capazes de tocar as pessoas de diferentes maneiras. Hoje tive que usar as palavras para dar uma bronca. Isso me deixou muito mal. Porque acredito que palavras devem ser feitas para tocar os corações. Muito obrigada pelo comentário, seja quem for o Anônimo que o deixou!

Adriana