13 de mar de 2012

Mais uma mensagem de aniversário


Daqui a poucos dias, minha mãe fará aniversário. Ela não quer comemorações nem homenagens. Detesta o fato de estar envelhecendo. Tem esse direito. Filhos, normalmente, lidam mal com o envelhecimento dos pais. Nossa finitude é inequívoca.

Acontece que, por um defeito de fábrica, estou sempre desobedecendo minha mãe. Por isso, resolvi fazer minha homenagem aos seus 70 anos, dos quais 43 passei ao seu lado. Primeiro dentro de sua barriga, depois em seu colo, maiorzinha ao seu lado, caminhando de mãos dadas com minhas irmãs. Anos mais tarde, do outro lado de uma linha telefônica, entre chegadas e partidas, tendo ao fundo a trilha sonora dos sinos das catedrais.
Quando penso em minha mãe, a primeira imagem que me vem à cabeça é a da mulher guerreira, que criou quatro filhas praticamente sozinha. Que teve coragem de amar um homem que talvez não devesse ter amado, mas amou mesmo assim. Ela nunca deixou que ninguém lhe dissesse o que fazer. Certas ou erradas, fez suas escolhas e, lindamente, jamais se arrependeu delas.
Minha mãe é uma grande contadora de causos do passado. Das histórias de roça, de gente simples com quem ela conviveu até a adolescência. Tinha verdadeira adoração pelo pai, seu Joaquim Faria, a quem sempre tentou agradar, mesmo à custa de alguma dor. Com a mãe, sua relação sempre foi boa, mas foi se enriquecendo com o tempo.
Um dia ela conheceu meu pai, Rolando Zenon. Foram amigos primeiro, namorados depois, amantes por longos anos, pais, gladiadores na arena das idas e vindas emocionais daquele relacionamento envolto em pétalas de rosa, cheiro de cigarro, bichos, crianças, atritos. Ao lado do meu pai veio a família dele, com vó Fia, Tios Gigôt, Regina, Roberto e Rute. Uma nova família na pequena Patrocínio Paulista, para onde ela se mudou na juventude. Foi estudar, trabalhar, tornou-se arrimo de família.
Uma das coisas que gosto em minha mãe é sua coragem. Durante seu casamento, mesmo com alguns percalços, teve a coragem de se manter ao lado de um homem que representava ao mesmo tempo amor e ódio, segurança e ameaça. Protegia os filhos acima de tudo, inclusive acima de sua paixão. Um dia, um pouco antes da hora, meu pai se foi. Luto.
Mas em sua imensa coragem, ela amou de novo. Profundamente. Com a docura de alguém que cultiva a simpatia, que é quase amor. As filhas foram se tornando adultas. Sozinha, ela trabalhava como louca para manter a casa, a educação, o equilíbrio. Ela tinha a idade que tenho agora. Viúva, quatro filhas adolescentes, uma casa para cuidar, um coração que aos poucos se fortalecia.
O tempo passou, nós crescemos. Veio o primeiro neto. Quase vinte anos depois o segundo. Ela parou de trabalhar, os filhos saíram todos de casa. O segundo amor se foi. Cada um com seu caminho. Cerimônias de formatura, casamento e batizados entraram no script de uma vida agitada, sempre ao lado das filhas, agora adultas. Também alguns funerais, comprovando a certeza da partida.
Há tanto o que compartilhar, aprender, ensinar. Mas ela não enxerga razão para celebrar os 70 anos de vida. Talvez por temer o tempo. Talvez por temer o futuro. Talvez por temer a felicidade. Talvez por vaidade, que ela nunca teve, aliás. Lúcida, inteligente, forte, capaz, clara, solidária, amiga, mãe, carinhosa, companheira, independente. Minha mãe é tudo isso e muito mais.
Sou uma filha distante. Normalmente não expresso meus sentimentos, tenho uma grande dificuldade com isso. Mas queria muito fazer uma grande festa para celebrar esse dia. Homenagens emocionadas e criativas. Fotos, rosas vermelhas, alegrias. Mas melhor que isso, fico apenas com palavras. Que descrevem uma mulher mais corajosa que cem leões. A ela devo muito do que sou, em especial minha educação, que ela sempre bancou, mesmo à custa de suas próprias vontades. Jamais me esquecerei do curso de desenho que pagou com sacrifício, nem dos anos de faculdade, quando me manteve sem jamais me deixar passar qualquer tipo de necessidade.
Somos diferentes, mas somos feitas da mesma propriedade. Acho que herdei-lhe a coragem, o traje de guerreira, a independência. Minha homenagem é silenciosa, apenas meus sentimentos no papel. Eu, que adoro envelhecer, quero chegar aos 70, 80, 100... Não vou seguir seus passos porque tracei meu caminho desde cedo, mas nessa trajetória, agradeço imensamente por todas as vezes que me levou no colo.
Parabéns, mãe. Eu te amo. Embora nunca diga isso. De toda forma, mandarei tocar os sinos das catedrais para celebrar esse dia tão especial.

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