1 de set de 2011

Bodas de piano

Ela acordou naquele dia como acordara todas as manhãs do seu aniversário de casamento, na certeza de que seria surpreendida por um cartão e um presente. Eram 27 anos de união. Eram 26 cartões guardados cuidadosamente. Vinham sempre juntos, cartão e presente. Por isso ela acordou na certeza de que encontraria os dois.
Ao chegar à sala, encontrou inicialmente o cartão, grande, com uma carta dentro. Eram três páginas. Ao lado, uma pequena caixinha. As instruções eram claras, ela deveria primeiro ler a carta, depois abrir a caixinha.
Inicialmente pensou que se tratava de algo mais sério. Uma carta de despedida, quem sabe? Possibilidade remota, pensou. 27 anos de casamento merecem uma carta melhor.
Ao ler, a emoção tomou conta de seu coração. Ele explicava sua tentativa de comprar um piano para ela, que fora de seu avô e atualmente pertencia a uma tia, já idosa. Há alguns meses, havia comentado com o marido que a tia pretendia vender o piano, que já não era usado e gerava despesas de manutenção. Mesmo sem tocar o instrumento, sentiu o desejo de comprar a peça, mas não teria condições naquele momento.
Comentou a conversa com o marido. Ele, silenciosamente, começou a planejar a aquisição do piano. Negociou, pesquisou, contratou transportadora, afinador e tudo mais. Acontece que a tia, muito apegada ao instrumento, desistiu da venda na última hora. Ele então teve que refazer seus planos e seu presente.
A longa carta explicava tudo isso, com muitos detalhes, recibos, registros das negociações com a tia. Era como um pedido de desculpas por um presente fracassado, que chegou muito perto de ser, mas não foi.
Ao terminar de ler, abriu o presente. Uma pequena caixinha de som na forma de piano, que tocava uma música qualquer. Mais um aniversário inesquecível. Mais uma história para contar.

Ouvi essa história da Fátima, vizinha da D. Suzana, uma querida amiga. Queria encontrar alguma maneira emocionante de contar, mas saiu simples. Impossível colocar a emoção da D. Fátima em palavras. Ao ouví-la contar, tudo o que me veio à cabeça foi o quanto eu queria um amor assim. Simples como caixinha de música.

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