25 de jun de 2011

Pequenos delitos, ainda delitos

Fonte: http://epucm.blogspot.com
Uma frase me chocou muito na semana que passou. Ao ser detido, um dos assassinos confessos de uma jovem empresária uberlandense defendeu-se dizendo que ele apenas havia atirado na moça, mas não a tinha violentado. Em sua fala, era como se, ao matar, ele tivesse cometido um delito menor que o estupro. Muito provavelmente, o jovem temia a lei do presídio, onde estupradores não têm perdão. Não temia a lei dos homens, da qual já havia se safado inúmeras vezes antes do assassinato da empresária.
O fato chocou Uberlândia e me fez refletir muito a respeito de nossa tendência em buscar nossas próprias desculpas para pequenos delitos. Nada que se compare a tirar a vida de alguém, mas ações como ultrapassar um sinal vermelho, dirigir falando ao celular ou embriagado, aceitar o troco errado em uma conta de bar, deixar o volume de som super alto mesmo após as 22h, sonegar impostos, desrespeitar a prioridade dos idosos e pessoas com deficiência, copiar as idéias de terceiros. Pequenos delitos, ainda delitos.
Fico me perguntando onde foi que perdemos o respeito pelas leis, normas, regulamentos, hierarquias. Em que momento deixamos de respeitar os mais velhos. Talvez a culpa seja mesmo do Gérson, que celebrizou em uma campanha de cigarros a mania do brasileiro querer levar vantagem em tudo, certo?
Nos dias de hoje, vejo jovens que copiam trabalhos escolares e assumem a autoria como se fossem seus. Fazem isso sem o menor constrangimento e ainda acham ruim quando um professor mais atento toma o cuidado de jogar trechos destes trabalhos no google e identifica a fraude, cuja nomenclatura técnica é plágio. Perdem datas de provas, desrespeitam prazos e insistem para que o professor dê um jeitinho em suas notas.
Vejo diariamente motoristas que dirigem e falam ao celular, sem preocupar-se com o fluxo dos pedestres. Motoristas que ultrapassam o limite de velocidade e invadem corredores de ônibus, matando jovens a caminho da universidade. Que furam semáforos para ganhar alguns segundos e tiram vida de crianças que brincam nas ruas. Que dirigem embriagados e matam em série.
Muitas noites não consigo dormir porque uma escola infantil vizinha de minha casa deixa o alarme disparar e tocar a noite toda, incomodando um quarteirão inteiro. Segundo a empresa de segurança que faz o monitoramento, os proprietários não atendem aos chamados. No centro da cidade, uma festa junina ultrapassa o horário permitido com som muito alto e ofende os moradores que brigam pelo seu direito a uma noite de sono.
Vejo também empresas explorando seus funcionários, ao adotar um discurso onde quem é comprometido sacrifica sua vida pessoal, relações familiares e saúde para apresentar resultados "excepcionais". Horas adicionais sem remuneração, viagens que terminam tarde e jornadas que começam cedo. Por trás do discurso de "vestir a camisa", desrespeitam pessoas e as tratam como recursos administrativos que fazem a roda da fortuna rodar a favor das corporações.
Vejo ainda políticos que roubam, mentem, exploram, desviam recursos, dirigem embriagados, fraudam, chantageiam, perdoam pequenos delitos de seus pares. Políticos que fazem um juramento no dia da posse, de defender o interesse público, mas dedicam-se unicamente à defesa dos seus interesses privados.
Vejo pessoas que jogam lixo nas ruas, pelas janelas dos carros. Que furam filas, subornam, desrespeitam o direito dos mais velhos.
Há algumas semanas, o publicitário uberlandense Celso Machado escreveu no jornal Correio uma crônica a respeito de coisas que lhe dão vergonha (se quiser ler, clique aqui). Muitas delas estão escritas aqui. Gostei bastante do texto porque trata justamente destes pequenos delitos. A questão é que, como não existe fiscalização, muitos deles acontecem às vistas de todos, algumas vezes até mesmo sob o olhar da polícia.
Na celebração de Corpus Christi, a Setran foi chamada para controlar o trânsito em torno da praça onde fica nossa paróquia. Vários carros estavam estacionados sobre faixas de pedestres, em cima de calçadas, bloqueando portões, colados nas esquinas. Como eles não estavam ali para multar, e sim para coordenar a procissão, ignoraram os delitos dos motoristas, fiéis a Deus mas infiêis às leis de convivência urbana.
E assim caminhamos como sociedade, ao considerar pequenos delitos como coisas normais. Acontece que não importa o tamanho do desrespeito à lei, ele continuará sendo desrespeito e merece punição. É esperar que se cumpra a lei dos homens.

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